Latim e Direito Constitucional

Como o governo de Nerva (90 a.D.) foi breve, seu sucessor Trajano, ocupado com guerras externas, não pôde exercer grande ação sobre a literatura.

Sob seu governo e o dos imperadores seguintes, perdeu-se todo o traço de originalidade. Todos os escritores adotam um estilo, que é mistura de todos os demais, e procuram tudo o que é raro, arcaico e artificioso. A erudição torna-se comum, fazem-se compêndios para os que não têm tempo ou aptidão para estudar as obras antigas. A oratória degenera para a declamação pomposa, mas as ciências práticas, como a medicina e as leis, são cultivadas com seriedade, qualidade e sucesso.

O cristianismo nascente deu grande impulso à vida intelectual. Os que pendiam para a religião antiga, e se opunham à nova com todas as forças, tentavam demonstrar que nada havia nesta que já não estivesse naquela, enquanto os defensores do cristianismo faziam todo o esforço e sacrifício para promover-lhe a difusão. 

A língua latina sofreu alterações notáveis, especialmente na província da África, onde a latinidade africana é representada por alguns escritores importantes.

D. Júlio Juvenal (Dec. Julius Juvenalis) foi o melhor poeta satírico dos tempos de Trajano, tendo nascido em 54 a.D. Suas sátiras foram escritas pela indignação contra o vício e a atrocidade no império de Domiciano. Apresentam o lado mais sombrio da vida social e política.

Cornélio Tácito (Cornelius Tacitus) nasceu em 54 a.D. e foi um historiador que teve o cuidado de acercar-se dos fatos com o auxílio das fontes mais autorizadas.

Em Dialogus de oratoribus fixou as causas da decadência da oratória desde a instituição do Império. Em De vita et moribus Julii Agricolae liber fez uma biografia. Em De origine, situ, moribus, ac populis Germanorum fez um tratado sobre a Germânia e seus habitantes. Põe em contraste a rude simplicidade dos germanos com o luxo e a decadência de Roma. Em Historiae mostra a história romana contemporânea de 36 a 96 a.D. Em Annales ou Ab excessu divi Augusti narra os acontecimentos de Roma desde a morte de Augusto.

C. Plínio Cecílio Segundo (C. Caecilius Plinius Secundus) nasceu em 62 a.D. Amigo das mais ilustres personagens do seu tempo, compôs o Panegyricus e manteve ativa correspondência com Trajano.

O imperador Adriano, que reinou de 117 a 138 a.D., foi cultor apaixonado de todo o gênero literário, e seu reino teve alguma influência sobre a literatura.

C. Suetônio Tranqüilo (C. Suetonius Tranquillus) nasceu em 75 a.D. e dedicou-se exclusivamente às letras. De viris illustribus é ampla coleção biográfica de poetas, oradores, historiadores, filósofos, gramáticos, retóricos, desde os tempos mais remotos. Vitae Caesarum é uma narração dos seis primeiros imperadores, de César a Nero, tendo buscado informações nas fontes mais autorizadas.

Júlio Floro (Julius Florus) é autor de um Epitome bellorum omnium anorum DCC, em que fez apologia dos romanos.

Entre os juristas são dignos de nota Sálvio Juliano (Salvius Julianus), que publicou um Edictum perpetuum e Digesta, e Sexto Pompônio (Sextus Pomponius), que escreveu uma Historia juris romanae e vários tratados jurídicos.

Entre os gramáticos são celebrados Q. Terêncio Scauro (Q. Terentius Scaurus), compilador de uma gramática latina, e Calpúrnio Flaco (Calpurnius Flaccus), autor de um pequeno tratado de orthographia.

M. Cornélio Frontão (M. Cornelius Fronto), nascido em 90 a.D., era conhecido como orator. Restam dele De bello porthico, De eloquentia, De oratoribus, Principia historiae e Epistolae.

Entre os historiadores, L. Ampélio (Lucius Ampelius) é autor de um Liber memoralis e C. Grânio Liciniano (C. Granius Licinianus), de uma Historia respublicae Romae. 

Alguns gramáticos, como C. Sulpício Apolinário (C. Sulpicius Apollinaris), ocuparam-se de questões métricas. A. Gálio (Aulus Gellius) nasceu em 115 a.D. Em Atenas escreveu Noctes Atticae, tratando da língua, literatura dos séculos passados, filosofia, direito e ciências.

Juristas insignes são Terêncio Clemente (Terentius Clemens), Volúsio Marciano (Volusius Marcianus) e Úlpio Marcelo (Ulpius Marcellus). Gaio (Gaius) dedicou-se ao ensinamento e a escrever sobre assuntos jurídicos, restando dele Institutionum commentarii quatuor, usados mais tarde na composição das instituições de Justiniano.

Marco Aurélio (M. Aurelius) consagrou-se à filosofia estóica, da qual são fruto os 12 libri de meditationibus et memoriis. 

Na escassa e mesquinha poesia foi digno de nota L. Apuléio (Lucius Ampelius), que escreveu uma oração: De magia. Célebre é sua novela satírica Metamorphoseon libri XI.

O jurista Emílio Papiniano (Aemilius Papinianus) deixou Questiones e Responsa.

Q. Setímio Florente Tertuliano (Quintus Septimius Florens Tertullianus), grande apologista do cristianismo, é escritor imaginoso. Sua obra Apologeticon, escrita em 199 a.D., é dirigida aos governantes do povo romano. Os ataques aos adversários são severos e azedos, o estilo é retórico mas original, ressentindo-se da latinidade africana.

P.S.: Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias – MA), em 09/05/2004.

 

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