Latim e Direito Constitucional

O evangelho de São João apresenta traços que o distinguem dos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), dando a entender o sentido da vida, dos gestos e das palavras de Jesus. A verdade em João tem uma força particular e especificamente cristã. O termo é comum em João e é freqüentemente combinado com outros termos-chave joaninos como luz e vida. A força deste sentido particular joanino é alguma coisa que pode ser conhecida (no sentido hebraico de conhecimento) e que liberta (Jo 8, 32). De Jo 8, 34 é claro que a verdade liberta do pecado, não da ignorância. Esta verdade Jesus a ouviu do Pai e a diz aos homens (Jo 8, 40). De Jo 8, 45 aparece a verdade como sinônimo das palavras de Deus. Satanás não pode perseverar nesta verdade, porque nele não há verdade (Jo 8, 44). Jesus veio para testemunhar esta verdade, e quem é da verdade escuta a sua voz (Jo 8, 37). Esta é a afirmação que levou Pilatos a terminar o interrogatório (Jo 18, 38) com a pergunta: “Que é a verdade?”

A sintaxe ensina que os termos essenciais da oração são sujeito (S) e predicado (P). Sujeito (S) é quem pratica a ação. Exemplo: Pedro quebrou o disco. Predicado (P) é o que se declara do sujeito. Exemplo: A águia voou.

E onde está a verdade? No sujeito (S) ou no predicado (P)?

Sob o ponto de vista filosófico, a palavra verdade é usada em dois sentidos: para referir-se a uma proposição ou a uma realidade. No primeiro caso, a proposição verdadeira diferencia-se da falsa. No segundo, uma realidade verdadeira distingue-se da aparente, ilusória, irreal, inexistente etc.

Os nossos conceitos podem ser combinados entre si, de modo que a nossa mente emita juízos (positivos ou negativos), que as proposições formulam.

O juízo é o ato pelo qual nossa inteligência afirma alguma coisa a respeito de outra. Quando pensamos ‘o homem é um ser corpóreo’, temos em mente dois conceitos: o de homem e o de corpóreo. Verificamos então que um mesmo sujeito (S) realiza essas duas coisas. Daí exprimirmos essa identidade dizendo: “O homem é um ser corpóreo”.

A proposição é a expressão oral ou escrita do juízo. Ela consta, como o juízo, de dois termos, o sujeito (S) e o predicado (P), e de um verbo, chamado cópula (C), elo, pois liga ou desliga os dois termos. O verbo da proposição lógica é sempre o verbo ser. 

E onde está a verdade? A verdade lógica está no juízo. É próprio do juízo conter a verdade ou falsidade lógica ou do conhecimento. E a verdade lógica ou do conhecimento é a adequação do intelecto com a coisa. Assim, a própria verdade e falsidade são acidentes do juízo. Por isso é que o juízo é verdadeiro ou falso.

Esta verdade lógica, que só está no juízo, aparece na oração afirmativa, negativa, hipotética, necessária (“O homem é animal”), contingente (“O homem é branco”), impossível (“O homem é pedra”), verdadeira, falsa, analítica (“O homem é racional”) e sintética (“Pedro corre”).

A sintaxe poderia dar um passo adiante, indo além dos termos essenciais da oração. Poderia talvez filosofar, confundindo um pouco mais Pilatos (Jo 18, 38) com a verdade lógica, que só existe no juízo, dizendo, por exemplo, que o sujeito (S) e o predicado (P) constituem a matéria do juízo, ao passo que a afirmação ou a negação são a forma do juízo, aquilo que o especifica.

P.S.: a) Artigo publicado simultaneamente nos periódicos A Hora (São Luís – MA), Jornal da Cidade (Caxias – MA) e O Dia (Teresina – PI).

b) Data da publicação no Jornal da Cidade, de Caxias (MA): 16/02/2003.

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