Latim e Direito Constitucional

Estimei ler, de um fôlego, nas festas de Natal, Balaio de Desejos, que recebi de presente no dia de meu aniversário, em Caxias (MA), com a amável dedicatória: “Ao Máriton, amante das boas coisas da vida. Da poetisa Ana Rosária Soares – 12/12/02.”

A primeira coisa que me impressionou na leitura do livro foi a total liberdade poética da autora. 

Horácio, contemporâneo de Virgílio, de Ovídio e do historiador Tito Lívio, foi da época áurea de Augusto. Dotado de engenho feliz, é o mais belo dos poetas do seu tempo, autor de odes imorredouras e, além de outras composições, da Arte Poética (Epístola aos Pisões), onde reuniu os mais úteis e necessários preceitos da poesia em geral, da comédia e da tragédia, obra que é sempre objeto de estudo dos mais aprofundados mestres da língua portuguesa.

Olavo Bilac, em um verso de Sagres, escreveu “Em que soidão o sol sepulta-se”, talvez prelibando as emoções dessa liberdade poética. De tantas o poeta goza, que é mais fácil, quanto à pureza gramatical, a redação de uma poesia que a de um trecho em prosa. 

E assim já pensava Horácio. De 476 versos hexâmetros se compõe a Carta aos Pisões, mais comumente chamada Arte Poética, dado o caráter didático do trabalho.

Do verso 1 ao 45 dá preceitos da necessária harmonia e nexo entre as partes e o todo de uma obra.
Do 46 ao 118 fala da elocução, ou seja, da razão das palavras e dos versos.
Do 119 ao 135 trata das personagens que se introduzem na poesia dramática.
Do 136 ao 152 cuida de cada uma das partes do poema: exórdio, meio e fim.
Do 153 ao 188 discorre sobre a diferença de costumes, os quais devem corresponder à idade e ao indivíduo.
Do 189 ao 308 disserta sobre a tragédia e sobre a comédia.

Termina enfeixando um complexo de preceitos sobre a filosofia e sobre a ética, fontes e bases do acerto de uma obra. Para se formar e criar o poeta – conclui – podem mais que tudo a natureza, a arte, o trabalho e o juízo do censor exato.

E aqui é que encaixo Balaio de Desejos, quando ela diz: “a poesia me persegue desde menina e ao longo do tempo descobri que ela é outra menina safada que anda sem calcinha, ansiosa por ser devorada pelos loucos – os poetas. E nós desejamos e comemos cada palavra que nos mostra os fundos e damos a elas o gozo da imortalidade”.

Essa, a liberdade poética de Horácio e de Ana Rosária Soares.

Diante da unidade de concepção (“Se um pintor quisesse ajuntar a uma cabeça humana o pescoço de um cavalo e, ajuntados os membros de toda a parte, pôr penas variegadas, de tal maneira que uma mulher, formosa na parte superior, venha terminar torpemente em monstruoso peixe, levados a ver poderíeis, amigos, conter o riso?”), os Pisões objetaram: “Existiu sempre para os pintores e para os poetas igual direito de fantasiar o que bem entenderem” (Pictoribus atque poetis quidlibet audendi sempre fuit aequa potestas – Arte Poética, 6, 10).

Ana Rosária Soares pareceu-me solta sexualmente na primeira parte do livro: “Quero um homem pra me fazer mulher. / Eu não quero um homem só para transar. / Quero um homem que faça uma festa / Em cada lugar que eu chegar.”

“Vem devagar que eu sou toda sua. / Já tomei banho, estou na cama nua. / O perfume que tu gostas eu usei. / O batom que mais adoras eu passei. / E nossa cama toda perfumei. / Porque o que tu gostas, eu bem sei.”

As poesias sociais, segunda parte do livro, mostram uma poetisa preocupada com “Meninos cheirando cola, / Velhos pedindo esmola, / Crianças de mamadeira comendo resto de lixo, / Muitos homens e mulheres sobrevivendo como bichos, / E o sabiá caladinho, escondido no seu ninho, / Em vez de cantar bonito, / Com o olhar longe e aflito, / Chora e sofre sozinho”. 

As crônicas, terceira parte, interessantíssimas, lembram as sentenças de Publílio Siro, que escrevia, representando mimos, espécie de farsa burlesca sem enredo: “Ousando, cresce a virtude; hesitando, o temor” (Audendo virtus crescit, tardando timor).

“Eu vou dançar e beber até cair no chão. / E quando a grana acabar a gente compra no cartão. / Pra beber schin gelada e tirar gosto com pão. / No carnaval de Caxias. / Na cantiga desse trio vou amanhecer o dia no cordão dessa folia. / Porque não é brinquedo não.”

Parabéns, Ana Rosária Soares. Na festa dos 90 anos de Miroca, durante 11 dias vivenciei, em minha terra natal, o Contraste, dando com Dione minha caminhada matinal pela cidade: “Ao andar pela cidade, / A praça Gonçalves Dias, / O Morro da Balaiada, / O Balneário Veneza, / Conhecer muitas riquezas, / Vê-se que é bom em Caxias, / Andar pela cidade!!! / Não, na periferia.”


P.S.: Artigo publicado no periódico Jornal da Cidade (Caxias - MA), em 05/01/2003.

Direitos reservados: os textos podem ser reproduzidos, desde que citados o autor e a obra. ( Código Penal, art. 184 ; Lei 9610/98, art. 5º, VII e Norma Técnica NBR 6023, da ABNT ).