Latim e Direito Constitucional

A fatuidade foi o principal motivo do atraso da Grã-Bretanha. Os ingleses mostravam tendência para acreditar, equivocadamente, que a experiência prática e o treinamento profissional produziriam as qualificações necessárias para acompanharem as mudanças. 

Além disso, a alta burguesia britânica estava convencida de que o objetivo da educação não era criar tecnólogos criativos, mas sim ”cavalheiros” (gentlemen). Homens que haviam feito fortuna durante a primeira Revolução Industrial mandavam os filhos para internatos particulares e para as antigas universidades de Oxford e de Cambridge (Oxford University eCambridge University), a fim de receberem uma educação de  “cavalheiros” (gentlemen)  -  principalmente aprender latim e grego.

Esses jovens, cujos talentos criativos poderiam ter sido canalizados para a ciência e a tecnologia, escolhiam carreiras na política ou na burocracia imperial ou nacional. O resultado foi um grave estreitamento da reserva de tecnólogos criativos e empresários dinâmicos.

Havia menos homens do que na Alemanha ou nos Estados Unidos interessados em organizar os volumes cada vez maiores de capital necessário para a expansão industrial. Era mais fácil investir dinheiro no exterior do que empreender a revitalização de várias atividades no país.

A desconfiança em relação ao novo, estimulado pela tendência de confiar na experiência prática do passado, impediu a Grã-Bretanha de enfrentar com eficiência o desafio alemão.

Essa rivalidade foi somente o mais claro aspecto da competição internacional durante as últimas décadas do século XIX. À medida que os países avançavam em sua industrialização, a busca de novos mercados os colocava em antagonismo direto.

Uma das consequências disso foi o abandono por todos os países, exceto a Grã-Bretanha, do dogma do livre-comércio.

Os alemães já haviam rejeitado a política de tarifas baixas em 1870. A Áustria e a Rússia já o tinham feito. A Espanha instituiu novas escalas de taxas de importação em 1877 e novamente em 1891. Na França, duas décadas de abandono gradual chegaram ao clímax com a aprovação da tarifaMéline (tarifs Méline), proposta por Jules Méline (1838-1925) em 1892.

Embora individualmente as nações procurassem isolar-se umas das outras dessa forma, a evolução da economia internacional determinava a ampliação e o desenvolvimento ainda maior de um sistema mundial e interdependente de manufatura, comércio e finanças.

Por exemplo, a adoção geral, pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos, do padrão ouro fez com que as moedas do chamado mundo civilizado passassem a ser facilmente trocadas umas pelas outras, de acordo com um padrão comum - o preço internacional do ouro.

Assim, os países que precisassem fazer importações dos Estados Unidos, por exemplo, não tinham de vender mercadorias diretamente àquele país. Poderiam vender a países sul-americanos, trocar o dinheiro recebido por ouro e depois comprar dos americanos.

Quase todos os países europeus, que dependiam de enormes quantidades de matérias-primas para manter sua taxa de produção industrial, importavam mais do que exportavam. Para evitar os crescentes déficits que de outra forma teriam resultado disso, confiavam em exportações “invisíveis”, isto é, fretes, seguros e juros sobre dinheiro emprestado ou investido.

O volume das exportações britânicas nessas áreas era muitíssimo maior que os de qualquer outro país. Londres era o mercado financeiro do mundo, era lá que os candidatos a empréstimos iam buscar capitais, antes de recorrer a qualquer outra fonte.

Em 1914 a Grã-Bretanha tinha 20 bilhões de dólares investidos no ultramar, contra 8,7 bilhões dos franceses e 6 bilhões dos alemães.

A firma londrina Lloyd's of London ou simplesmente Lloyd's, uma companhia de seguros, tinha clientes em todo o mundo. A frota mercante britânica transportava os bens manufaturados e as matérias-primas de todas as nações mercantis.

Era o volume de suas exportações “invisíveis” que permitia à Grã-Bretanha continuar fiel à doutrina do livre-câmbio enquanto todas as outras nações europeias eram obrigadas a instituir tarifas alfandegárias.


Rio de Janeiro, 24 de novembro de 2013.


N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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