Latim e Direito Constitucional

O aumento na escala da produção teve consequências importantes e muitas vezes perturbadoras para os trabalhadores. A mais óbvia foi a necessidade que tiveram homens e mulheres de reaprender seus ofícios.

Eram obrigados a adaptar seus antigos conhecimentos às máquinas novas. Muitas vezes essa adaptação tinha como consequência uma perda de remuneração ou de prestígio ou ambas as coisas.

A maior parte do trabalho com máquinas não era especializada. Um aprendiz podia aprender um ofício mais ou menos em uma semana.

Os trabalhadores, que no passado se haviam orgulhado de uma determinada qualificação e que tinham sido remunerados de acordo com sua capacidade de trabalho, tiveram de enfrentar o fato que a mudança industrial não só os estava obrigando a reaprender como os estava forçando a reconhecer que suas novas “qualificações” - se assim podiam ser chamadas  -   não valiam grande coisa.

Por exemplo, quando a própria máquina era capaz de cortar metal com precisão infinitesimal, a perícia de um operário passou a ser menos necessária. Mesmo quando os trabalhadores não eram obrigados a reaprender a fim de se ajustarem ao aumento da escala, com frequência tinham de ajustar-se ao menos à reorganização e à racionalização das fábricas.

Nos ofícios em que o transporte de manual de materiais havia sido um fator importante para o custo dos produtos, a mecanização, realizada para reduzir esse custo, produzia uma espantosa série de mudanças.

Guindastes elétricos, usados em conjunto com gigantescos ímãs nas indústrias de ferro e aço, aumentavam a rapidez com que as mercadorias podiam ser movimentadas e exigiam que os trabalhadores aceitassem quaisquer mudanças que sua adoção acarretasse.

Um segundo efeito da mudança de escala - e ainda mais importante que o primeiro - foi a constante exigência de mais eficiência.  Quanto maior a escala da produção, mais importante se tornava eliminar o desperdício.

Um minuto perdido na produção de dez pares de sapatos podia não fazer muita diferença se apenas cinquenta pares eram produzidos por dia. Entretanto, se eram fabricados centenas, tornava-se fundamental, aos olhos da administração, fazer com que esses minutos não fossem perdidos.

Nas fábricas em que havia sido gasto capital em máquinas novas, seus proprietários, cônscios do custo de seu investimento, aumentavam a produção a fim de obter lucro.

Nas fábricas que ainda empregavam equipamento mais antigo, os proprietários acreditavam que a única maneira de concorrer com as empresas modernizadas seria arrancar tudo quanto pudessem de suas máquinas menos produtivas.

Em ambos os casos, os trabalhadores eram pressionados a produzir cada vez mais. Um resultado dessa busca de eficiência foi a reestruturação das escalas salariais.

Antes desse período, embora tivessem ocorrido sérias disputas por salários, tanto o empresariado como os trabalhadores pareciam satisfazer-se com discutir remuneração com base na ideia tradicional de a daily wage for a fair day job fair (um salário diário justo por um trabalho diário justo).

Naturalmente, variavam as definições do que fosse “justo”. Mas o nível do desempenho individual era em geral estabelecido pelo costume. O que os trabalhadores produziam durante um dia continuava a determinar a produção esperada.

Entretanto, a partir de 1870 aproximadamente, as expectativas e os procedimentos começaram a mudar. Depressões econômicas periódicas, no último quarto do século XIX, levaram os lucros a cair em relação ao salário, o que fez com que os empregadores insistissem numa maior produtividade individual por parte de seus empregados. Pedia-se agora aos trabalhadores que produzissem tanto quanto os empresários julgavam que fossem potencialmente capazes de produzir.

Mas quem determinaria esse potencial? Eis uma pergunta que perturbou as relações trabalhistas durante esses anos. Os empregadores, que estavam adotando instrumentos de precisão a fim de aumentar a produção, convenciam-se cada vez mais de que também a produção do trabalhador podia ser aferida com precisão semelhante.

O mais famoso teórico da eficiência do trabalho e do que se chamava “administração científica do trabalho” (Scientific managementfoi o americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915). Ele criou um sistema de três passos pelo qual a produção de um trabalhador podia ser medida “cientificamente”; segundo ele, tal sistema proporcionaria um método preciso para  a determinação de escalas salariais.


Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2013.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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