Latim e Direito Constitucional

As mudanças tecnológicas ocorriam concomitantemente com um aumento geral do padrão de vida da maioria da população do mundo ocidental - e, na verdade, em parte como resultado disso. Havia ainda, naturalmente, grande número de pessoas pobres, tanto nas cidades como nos campos; biscateiros, desempregados e aqueles que trabalhavam em indústrias e ofícios em declínio.

Os operários qualificados cujos rendimentos aumentaram em decorrência da deflação e dos melhores salários não conheceram nada semelhante à melhoria de vida desfrutada pela maior parte da classe média. Tampouco poderiam esperar evitar de todo os períodos de desemprego que tornavam a vida tão caótica para muitas de seus companheiros não qualificados.

No entanto, apesar dessas ressalvas, não há como negar que as pessoas gozavam um padrão de vida jamais igualado anteriormente. E esse maior padrão de vida produzia o aumento da demanda de bens de consumo. O maior consumo de bens não era de modo algum uniforme; era maior nas áreas urbanas e industrializadas do que no campo.

Entretanto, mesmo no campo a parcimônia tradicional via-se ameaçada à medida que os fazendeiros e suas mulheres viajavam de trem às cidades, viam coisas que não tinham imaginado poder possuir e então decidiam que deviam gastar as economias para possuí-las.

Para atender aos novos consumidores, na maioria de classe média, as lojas de departamento projetavam seus produtos e sua publicidade de modo a tornar o ato de comprar o mais fácil e convidativo possível.

Grandes vitrinas mostravam mercadorias tentadoramente: liquidações periódicas encorajavam as pessoas a comprar pechinchas; catálogos e vendas a crédito facilitavam aos clientes gastar dinheiro sem sair de casa. O resultado foi um enorme aumento no volume de bens de consumo produzidos pera esse mercado em rápida expansão.

Bicicletas, relógios, utensílios domésticos, objetos de decoração  - essas e muitas outras coisas passaram a ser fabricadas em grande quantidade, e com novos materiais (aço barato) e novas técnicas (força elétrica).

Muitas desses produtos eram projetados com base no pressuposto correto de que as mulheres se tornavam cada vez mais responsáveis pelas compras do lar. Por isso, os produtos eram desenhados de modo a atrair diretamente as mulheres ou as crianças pelas quais as mulheres eram responsáveis.

A máquina de costura a pedal foi um caso particular  - a primeira máquina doméstica. O americano Isaac Merritt Singer (1811-1875), responsável pelo desenvolvimento do pedal e da agulha reta na década de 1850, era tanto um empreendedor como um inventor. Foi um pioneiro no campo da publicidade e da promoção comercial, encorajando as compras a prestações e criando cursos para costureiras.

As máquinas de costura porém tiveram um efeito muito maior do que mudar os hábitos das donas de casa. Eram baratas e leves, fáceis de instalar e de operar. Donos de ateliês podiam instalar várias, contratar um punhado de moças a salários baixíssimos e obter lucros produzindo roupas prontas para atender aos crescentes mercados.

Esta foi somente uma das maneiras pelas quais a escala de produção se alterou em fins do século XIX; a demanda e a tecnologia se aliavam para causar a mudança.

Na metalurgia, a utilização do aço permitiu o corte rápido de moldes, que produziam os preços e, por sua vez, estimulavam a fabricação de grande variedade de utensílios baratos de metal - panelas e caçarolas, por exemplo.

A máquina de costura levou ao desenvolvimento de outros instrumentos que ajudavam a reduzir os custos na indústria do vestuário - abridores de casas, máquinas de fazer renda, ponteadores de couro.

Enquanto que em 1850 um sapateiro levava dez horas para fabricar um par de sapatos a mão, ao fim do século um grupo de sapateiros levava apenas algumas horas para produzir dez pares, usando máquinas.

Na indústria têxtil, motores aperfeiçoados duplicaram a velocidade dos teares e máquinas de fiar. Na indústria pesada, prensas a vapor realizavam o trabalho de muitos homens, com mais precisão e rapidez. Equipamentos novos desse tipo eram caros. Por isso, na indústria pesada eram as companhias maiores que prosperavam; e ao prosperarem tornavam-se ainda maiores.

Em todos os países da Europa, assim como nos Estados Unidos, a palavra de ordem era expansão e consolidação.

Isso aconteceu sobretudo na Alemanha, onde na indústria de ferro e do aço quase 75 por cento dos assalariados trabalhavam em fábricas de mil empregados ou mais, e onde mais de 90 por cento do equipamento elétrico era produzido em fábricas com mais de 50 trabalhadores. Assim, a máquina estava alterando a escala da manufatura em duas direções ao mesmo tempo.

Na indústria do vestiário, os empresários podiam utilizar máquinas baratas para fazer com que pequenas oficinas operassem com lucro. Nas siderúrgicas, o custo dos novos equipamentos encurralava os pequenos concorrentes com o resultado de que as fundições se tornavam imensas.


Rio de Janeiro, 04 de agosto de 2013.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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