Latim e Direito Constitucional

Houve uma segunda revolução industrial? Quaisquer que tenham sido as mudanças de técnica e de âmbito, não se comparam com as que caracterizaram a primeira revolução, a Revolução Industrial por excelência. 

Há, no entanto, bons motivos para se distinguir um segundo período de desenvolvimento e avanço industrial. O bem-sucedido processo de formação nacional viria a significar que os anos 1870-1914 se caracterizariam por um pronunciado aumento das rivalidades econômicas internacionais, culminando numa corrida por territórios imperiais na África e na Ásia.

A Grã-Bretanha, se não chegou a verdadeiramente abrir mão de sua dianteira industrial nesse período, deixou de enfrentar com sucesso real os enérgicos e resolutos desafios da Alemanha e dos Estados Unidos à sua vantagem cada vez menor.

Novas tecnologias, sobretudo nos campos da metalurgia, da química e da eletricidade, resultaram em novos produtos. Melhores padrões de vida provocaram uma maior demanda, que, por sua vez\, aumentou o volume de produção.

E a necessidade de maior produção exigiu uma significativa reorganização econômica, de modo a proporcionar uma oferta mais livre de capital e assegurar uma força de trabalho mais eficiente. São essas mudanças que distinguem a segunda etapa da industrialização da primeira e, por conseguinte, justificam que ela seja tratada em separado.

No entanto, cumpre perceber que elas se originaram não só daquelas condições econômicas que foram o resultado da primeira etapa, mas também do clima político, social e cultural mais geral. Uma mudança tecnológica importantíssima desse período teve como consequência a produção em massa de aço. As vantagens do aço sobre o ferro - resultado  do menor teor de carbono do aço  -  são a dureza, a maleabilidade e a resistência.

O aço consegue manter o fio cortante em muitos casos em que isso é impossível ao ferro; que é quebradiço e que, para ser usado industrialmente, quase sempre tem de ser fundido (isto é, despejado em formas). E o aço, devido à sua resistência em proporção ao peso e volume, constitui um material particularmente adaptável a fins de construção. Tais vantagens eram desde séculos reconhecidas por artesãos. Contudo, até o aço poder ser produzido de maneira barata e em massa, as vantagens eram mais teóricas que reais.

Acontece que consequentemente duas invenções, durante os primeiros anos da  Revolução Industrial, haviam reduzido o preço do aço e aumentado sua produção.

A técnica do cadinho, descoberta na Inglaterra no século XVIII, exigiu o aquecimento de quantidades relativamente pequenas de minério de ferro ao ponto em que as impurezas pudessem ser eliminadas, ao teor de carbono reduzido a uma proporção adequada de carbono distribuída uniformemente pelo produto acabado.

Embora um cadinho não fosse grande, comportando em média não mais de 20 a 27 quilos, podia-se juntar conteúdo de vários, de modo a produzir lingotes de aço de várias toneladas.

Um século mais tarde, na década de 1840, dois alemães adaptaram o processo de barro amassado (puddling), usado na fabricação de ferro, à produção de aço. Embora não produzisse um aço tão duro quanto o obtido em cadinhos, reduzia-lhes o preço consideravelmente.

Entretanto, só com a invenção dos processos Bessemer e Siemens-Martin foi que o aço começou a competir com o ferro. Na década de 1850, um inglês,Sir Henry Bessemer (1813-1898), descobriu que a injeção de um jato de ar através do metal derretido podia levar a um grau mais exato de descarbonização num tempo bem mais curto, e com quantidades de minério muito maiores do que era possível com os métodos de cadinho ou de barro amassado.

Bessemer logo descobriu, porém que seus “conversores” eram incapazes de queimar e consumir quantidades suficientes de fósforo; e o fósforo, salvo em quantidades insignificantes, tornou o metal imprestável. Uma solução parcial era obtida com a introdução de minérios de hematita não fosfóricos.

No entanto, essa solução não era viável na maioria dos países europeus, onde faltavam grandes depósitos de hematita. O mesmo problema atormentou os inventores alemães Friedrich Siemens (1826-1904) e Carl Wilhelm Siemens, mais tarde Sir William Siemens (1823-1883), cuja fornalha utilizava os gases residuais para aumentar o calor.

Só quando Pierre Martin(1752-1820), um francês, descobriu que a adição de sucata de ferro à mistura induzia a adequada descarbonização foi que a fornalha Siemens pôde ser utilizada para produzir aço comercialmente.

E só em fins da década de 1870 é que o problema da fosforescência foi solucionado tanto para o processo Bessemer quanto para o Siemens-Martin.

A solução era simples e foi descoberta por dois ingleses, um burocrata e um químico; Sidney Gilchrist Thomas (1850-1885) e seu primo Sidney Gilchrist.. Introduziram calcário de ferro fundido para se combinar com o fósforo, que era extraído da mistura. E revestiram o conversor de modo a fazer com que a escória não lhe corroesse as paredes e devolvesse fósforo ao metal fundido.


Rio de Janeiro, 07 de julho de 2013. 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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