Latim e Direito Constitucional

O passo final de Bismarck para consumar a unificação da Alemanha foi a guerra franco-prussiana de 1870-1871. Esperava ele que um conflito com a França ativasse o espírito de nacionalismo alemão na Baviera, emWürtemberg e outros estados do sul, ainda fora da confederação.

Tirando proveito de uma tormenta diplomática com relação ao direito de osHohenzollerns (Das Haus Hohenzollern - a família real da Prússia) ocuparem o trono espanhol, Bismarck\ fez quanto pôde para forçar um desentendimento entre franceses e alemães.

O rei Guilherme (Wilhelm Friedrich Ludwig von Preußen - 1797-1888) concordou encontrar-se com o embaixador francês na estação de águas deEms, na Prússia, a fim de discutir a sucessão espanhola.

Quando o rei telegrafou a Bismarck (Die Emser Depesche), informando que haviam sido recusadas as exigências francesas de exclusão perpétua da família Hohenzollern do trono espanhol, Bismarck liberou partes da mensagem à imprensa, de modo a dar a impressão de que o rei Guilherme havia insultado o embaixador  - coisa que ele não fizera.

Ao ser recebida na França a notícia deturpada do que acontecera em Ens, a nação reagiu com a disposição de ir à luta armada. O brado de guerra ecoou na Prússia, onde Bismarck publicou documentos que, segundo alegava, comprovavam as pretensões francesas à Renânia.

Assim que foi declarada a guerra, os estados alemães do sul tomaram partido ao lado da Prússia, na crença de que estava sendo vítima de agressão. A guerra foi rápida. As tropas francesas não estavam à altura das forças prussianas, profissionais e soberbamente equipadas.

Tampouco outras potências ajudaram a França. A Áustria, a que tinha melhores possibilidades de fazê-lo, continuava enfraquecida por sua recente guerra contra a Prússia. Os húngaros, que a essa época haviam assumido posições influentes dentro do governo austríaco, estavam mais que inclinados a apoiar o fortalecimento da Prússia, pois o aumento da força prussiana na Alemanha debilitaria ainda mais a posição da Áustria ali.

E quanto mais fraca fosse a Áustria como potência alemã, mais fortes se tornariam as pretensões dos húngaros à predominância. Mais uma vez acontecia uma consciência nacionalista atritar-se com outra. A guerra começou em julho; e terminou em setembro com a derrota dos franceses e a captura do próprio Napoleão III (Napoléon III - 1808-1873) em Sedan, na França..

Após a queda do governo imperial francês, forças rebeldes continuaram a lutar em Paris contra os alemães, até o inverno de 1871. EntrementesBismarck cuidava de consumar a união alemã, pela qual tanto batalhara. A 18 de janeiro de 1871 foi proclamado o Império Alemão (Deutsches Kaiserreich) no grande Salão dos Espelhos (Salon des Glaces), em Versalhes.

Todos aqueles estados, exceto a Áustria, que ainda não haviam sido absorvidos pela Prússia declararam sua lealdade a Guilherme I, daí em diante imperador ou kaiser.

Quatro meses depois, em Frankfurt, um tratado entre franceses e alemães cedeu ao novo império a região fronteiriça da Álsácia, condenou a França a pagar uma indenização de cinco bilhões de francos e assim espalhou por toda a parte a notícia de notável sucesso de Bismarck em construir seu estado-nação.

Na Itália, os acontecimentos foram quase paralelos aos que haviam levado à unificação da Alemanha. Antes de 1848, vale recordar, a Itália era uma colcha de retalhos de pequenos estados. Dentre os independentes, os mais importantes eram o Reino da Sardenha (Il Regno di Sardegna) ao norte, os Estados Pontifícios (Stati Pontífici) na região central, e o Reino das Duas Sicílias (Il Regno delle Due Sicilie) ao sul.

As ex-repúblicas da Lombardia e da Venécia eram dominadas pela Áustria, ao passo que homens da confiança dos Habsburgos governavam Toscana, Parma e Módina. Ao ser a península varrida pelo fervor revolucionário de 1848, um a um os governantes concederam reformas democráticas.

Carlos Alberto, da Sardenha, superou a todos, concedendo direitos civis e uma forma parlamentar de governo. No entanto, logo ficou patente que os italianos estavam tão interessados pelo nacionalismo quanto pelo liberalismo.

Já por alguns anos, patriotas românticos vinham sonhando com oRisorgimento, que devolveria à nação a liderança gloriosa que ela exercera nos tempos romanos e durante a Renascença. Para se conseguir isso, era voz unânime que a Itália teria de constituir um único estado. Diferiam, porém, as opiniões quanto à forma que deveria assumir o novo governo.

Jovens idealistas seguiam a liderança de Giuseppe Mazzini (1805-1872). Patriotas de orientação religiosa acreditavam que a solução mais viável seria tornar a Itália uma federação, sob a presidência do papa. A maioria dos nacionalistas mais moderados defendia uma monarquia constitucional, construída sobre os alicerces do Reino da Sardenha.

Aos poucos os objetivos desse terceiro grupo cristalizaram-se sob a liderança de um astuto nobre sardo, o Conde Camillo Paolo Filippo Giulio Benso, conte di Cavour, di Cellarengo e di Isolabella, (1810-1861). Em 1850 foi nomeado ministro do comércio e da agricultura de seu estado natal; em 1852, primeiro-ministro.


Rio de Janeiro, 02 de junho de 2013. 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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