Latim e Direito Constitucional

Na França a agitação radical produziu resultados muito diferentes. Também ali os que haviam defendido as barricadas em 1830 logo se desgostaram com o liberalismo pelo qual haviam arriscado a vida. 

Traziam ainda consigo lembranças ou mitos dos anos da primeira República Francesa - suas realizações internas, suas vitórias no exterior, senão seu Regime de Terror (La Terreur).

Opunham-se à monarquia constitucional, e viam o governo parlamentar sem grande entusiasmo.  Estavam dispostos a, se necessário, usar a força a fim de alcançar suas metas.

Concentrados em Paris, os radicais eram constituídos, na maior parte, de escritores, estudantes ou líderes da classe trabalhadora. Reuniam-se em segredo, estudavam as obras do teórico François Noël Babeuf  (1760-1797), conhecido pelo nome de Gracchus Babeuf, (cujo livro La Conjuration des Égaux,escrito durante a Revolução Francesa, se tornou sua biblia), e conseguiam causar aborrecimentos constantes para os governos liberais e burgueses de Louis-Philippe d’Orléans (1773-1850).

Tinham como principal porta-voz o socialista Auguste Blanqui (1805-1881),  que demonstrava serem os trabalhadores vítimas da classe média e ajudava a organizar sociedades secretas destinadas a provocar a insurreição final.

Foi através da imprensa que os radicais realizaram algumas de suas campanhas mais bem-sucedidas. As contundentes caricaturas que Honoré Daumier (1808-1879) fazia de Luís Filipe levaram-no à prisão mais de uma vez.

No entanto, os radicais também saíam às ruas. Como retaliação, em 1824 o governo declarou ilegais as organizações políticas. Em protesto, houve distúrbios em Lyon e Paris, onde durante dois dias tropas do governo massacraram centenas de insurretos e prenderam cerca de 2.000 líderes republicanos.

Em 1835, após um atentado contra Luís Filipe, o governo aprovou uma lei de censura, que poibía a publicação de artigos que tentassem inspirar desdém pelo rei ou a impressão de qualquer desenho ou emblema sem aprovação prévia do governo.
Essas medidas repressivas só serviram para aumentar o descontentamento oom o regime.

Membros mais progressistas do legislativo aconselharam François Pierre Guillaume Guizot (1787-1874) a conceder o direito de voto a profissionais, aos quais ele era negado por não possuírem porpriedades, mas cuja adesão geral às doutrinas do liberalismo era inconteste.

Guizot recusou-se a fazê-lo, levando com isso esses moderados para as fileiras dos republicasos mais radicais.
Em 1847, vários elementos da oposição estavam insatisfeitos o bastante para instigar uma campanha geral de agitação em toda a França.

Em banquetes políticos, republicanos como  o poeta Alphonse Marie Louis de Prat de Lamartine,conhecido como Alphonse de Lamartine (1790-1869), e republicanos socialistas como Louis Jean Joseph Blanc (1811-1882), pregaram a reforma drástica, embora não a revolução total.

Contrariando os desejos expressos do rei, anunciou-se a realização de um comício monstro para o dia 22 de fevereiro de 1848. Na véspera, o governo proibiu-o.

Distúrbios e lutas de rua, durante os dois dias seguintes, terminaram com a abdicação de Luís Filipe e aumentaram as exigências de uma república.

A revolução de fevereiro na França foi um catalisador que ajudou a produzir nos meses seguintes levantes na maior parte da Europa.

Entrementes, em Paris, criou-se um governo provisório de dez membros, sete dos quais, entre eles Lamartine, eram republicanos moderados; três, entre eles Blanc, eram socialistas.

As tensões entre os republicasos de classe média e os socialistas radicais, antes obscurecidos pela insatisfação comum com o governo de Luís Filipe, vieram à tona, moldando os acontecimentos políticos dos meses seguintes de várias maneiras específicas.

 
Rio de Janeiro, 1º de abril de 2012.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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