Latim e Direito Constitucional

Alguns dos artistas que mais criticavam a burguesia, embora repudiassem  o artifical e o decorativo, refletiam, não obstante, a obsessão da classe média com a arte como moralidade. 

A Irmandade Pré-Rafaelita, The Pre-Raphaelite Brotherhood, um grupo inglês de pintores e pintoras, liderado pelo pintor e poeta Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), tomou a peito exprimir seu desdém pelos valores contemporâneos.

Chamavam a si próprios de pré-rafaelitas como maneira de proclamar sua admiração pela técnica dos artistas do início da Renascença, supostamente intocados pelo gosto artístico corrompido.

No entanto, as obras dos principais membros da irmandade exsudavam tamanho sentimentalismo que lhes prejudicava a natureza rebelde e dava-lhes um caráter de carolice convencional, além de torná-las, em última análise, inócuas como protesto social.

O mesmo pode ser dito, em menor grau, da obra do francês Jean-François Millet (1814-1875). Seu quadro Homem com enxada (L'homme à la houe) é um comentário forte e amargo sobre a vida  dos camponeses; já o Angelus(L'Angélus) suaviza o comentário, que se faz sentimental.

Tanto na Inglaterra como na França, porém, alguns dos pintores mais talentosos questionaram muitos dos valores reverenciados pela classe media.

Jean Désiré Gustave Courbet (1819-1877) e HonoréDaumier (1807-1879) expressaram comiseração pelos infortúnios da classe trabalhadora francesa, contrastando cenas de padecimentos rurais e urbanos com caricaturas nada lisonjeiras da burguesia.

Daumier, sobretudo, era mordaz em satirizar os males sociais e políticos; ridicularizava a corrupção dos funcionários subalternos e a piedade hipócrita dos ricos. A maioria das obras de Daumier e Courbet tinha uma causticidade que impedia a pieguice.

Embora criticassem a Revolução Industrial e os valores da classe média, esses escritores e artistas plásticos não propunham nada de muito tangível no sentido de reforma social.

Da mesma forma que se colocavam contra o triunfo de uma burguesia materialista, opunham-se também à ideia de uma completa democracia.Carlyle, em especial, criticava o presente comparando-o com um passado róseo que nunca existira.

Nisso se assemelhava a um dos mais candentes críticos da nova sociedade burguesa, o inglês William Cobbett (1762-1835). Em seu jornal The Poor Man’s GuardianCobbett invectivava tanto a industrialização quanto seus efeitos.

Sua propaganda refletia o dilema que a maioria dos críticos tinha de enfrentar: com efeito, a industrialização havia trazido em seu bojo grandes males sociais e econômicos; mas significava isso que se devesse tentar voltar à vida da sociedade pré-industrial, também frequentemente dura, e sempre tediosa, ainda que provavelmente mais segura?

Durante algum tempo, um pequeno grupo de pensadores respondera a essa pergunta com um sonoro “não”. Argumentavam que não era possível um retorno aos velhos tempos e aos velhos costumes, e que a sociedade poderia ser ao mesmo tempo industrial e humanitária.

Com frequência esses pensadores radicais eram explicitamente utópicos. Dois dos mais persuasivos foram o inglês Robert Owen (1771-1858) e o francês François Marie Charles Fourier (1772-1837),

Ainda que ambos sejam corretamente vistos como utópicos, com todas as limitações práticas que esse rótulo traz consigo, em sua época muitos de seus seguidores acreditavam na possibilidade de se instituir os programas por eles propostos.

Owen, ele próprio proprietário de um grande cotonifício em New Lanark, na Escócia, atacava a convicção burguesa de que se deveria permitir à motivação do lucro moldar a organização social e econômica.

Depois de organizar sua própria fábrica, de modo a oferecer ensino gratuito e um sistema de previdência social para seus operários, Owen passou a defender uma reorganização geral da sociedade, com base na cooperação; os trabalhadores seriam remunerados pelas comunidades segundo o trabalho que realmente prestassem.

Fourier queria uma reconstituição ainda mais drástica, que incluísse a abolição do sistema de salários e a completa igualdade dos sexos.

Os seguidores de Owen e de Fourier procuravam fugir das confusões do mundo da época através de comunidades idealistas fundadas de acordo com os princípios de seus líderes.

Todas essas tentativas fracassaram após certo tempo, vítimas de liderança inepta e, no caso das comunidades fourieristas da França, de acusações de depravação moral, resultantes das revolucionárias doutrinas sexuais deFourier.

 
Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 2011.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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