Latim e Direito Constitucional

Muitos escritores, ao criticarem a ideologia da classe média, deploravam a desintegração  social e  a hipocrisia moral que viam, descrevendo-as como o legado da revolução industrial. 

O escocês Thomas Carlyle (1795-1881), ainda que defendesse a Revolução Francesa e acreditasse na necessidade de uma nova aristocracia de industriais (“capitães de indústria” - captains of industry), não nutria senão desprezo pelas teorias dos utilitaristas.

Segundo seu parecer, elas não faziam mais que desculpar a cobiça e o espírito aquisitivo da nova classe média.

Outro a atacar com virulência a classe média era o romancista inglêsCharles Dickens John Huffam (1812-1870). Em romances como Oliver Twist ou Progress the boy Parish, Hard Times e Domey and Son, Dickens escreveu com simpatia sobre como eram tiranizados os operários industriais pela nova classe de ricos.

Na França, o abade Hugues-Félicité Robert de Lamennais(1782-1854), ainda que pregando o respeito pela propriedade privada, invectivava o egoísmo. Afirmava em seu Livre du peuple que à “gentinha” do mundo cabia uma parcela demasiado diminuta da direção de suas vidas.

Honoré de Balzac (1790-1850) escreveu La Comédie humaine para desmascarar a estupidez, a cobiça e a mesquinhez da classe média.

Gustave Flaubert (1821-1880), em seu maior romance, Madame Bovary, retratou a natureza banal, e literalmente fatal, da vida burguesa para as mulheres.

Um dos mais incisivos críticos dos começos da industrialização foi o filósofo e economista John Stuart Mill (1806-1873). Embora como economista Mill seja frequentemente colocado entre os membros da escola clássica, a verdade é que ele repudiou algumas das suas mais sagradas premissas.

Em primeiro lugar, rejeitava a universalidade das leis econômicas. Admitia existirem leis imutáveis que governavam a produção, mas insistia em que a distribuição da riqueza pode ser regulada pela sociedade em proveito da maioria de seus membros.

Em segundo lugar, advogava certas medidas que divergem mais radicalmente da doutrina do laissez-faire do que as recomendadas por qualquer dos seus precursores.

Não se opunha, em certas condições, a leis para abreviar a jornada de trabalho e acreditava que o estado pode muito bem tomar certas providências preliminares no sentido de retribuir a riqueza, mediante a tributação das heranças e a apropriação do produto da valorização indébita da terra.

Na quarto livro de seu The Principles of Political Economy, ele recomendava a abolição do sistema de salários e visualizava uma sociedade composta de cooperativas de produtores, em que os trabalhadores seriam donos das fábricas e elegeriam os dirigentes.

Por outro lado, Mill não era nenhum socialista. Desconfiava do estado e a verdadeira razão pela qual defendia as cooperativas de produtores não era exaltar o poder dos trabalhadores, mas dar-lhes os frutos de seu trabalho.

Também os artistas atacavam os valores da sociedade industrial, na pintura e na escultura. A arte preferida pela classe média europeia no século XIX era aquela que de alguma forma ou narrava uma história ou, melhor ainda, pregava uma mensagem.

O belo era a decoração superficial, capaz de ser admirada por sua riqueza intrínseca e pelo que, por conseguinte, declarava sobre a riqueza de seu proprietário. Ou o belo era um moralismo facilmente compreensível e, se possível, tranquilizador.

Quando em 1851 se realizou no London Crystal Palace a Grande Exposição das Obras Industriais de Todas as Nações, para celebrar o triunfo do industrialismo, uma das coisas que mais atraíram o interesse do público foi uma estátua do escultor americano Hiram Powers (1805-1873), the greek slave.

Representando uma jovem cristã nua e de pé, segundo o catálogo, diante do olhar de um potentado oriental, a obra permitia a seus admiradores vitorianos uma oportunidade para lhe fruírem a impudicícia e ao mesmo tempo edificarem-se com o virtuoso desdém que a moça demonstrava em relação ao captor. 


Rio de Janeiro, 04 de dezembro de 2011. 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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