Latim e Direito Constitucional

A classe média fundava-se na convicção de que a industrializção e o sistema fabril estavam, juntos, espalhando benefícios para todos, e não apenas para ela. 

Sem dúvida havia os que discordavam, que insistiam, por exemplo, na regulamentação dos salários e da jornada de trabalho nas fábricas. Mas os capitalistas alegavam que a intervenção inibiria a distribuição desses benefícios e, por conseguinte, a proliferação da felicidade geral.

Para corroborar o que diziam, podiam citar o economista inglês Nassau William Senior (1790-1864). Ele afirmava que o lucro líquido de qualquer empreendimento industrial resultava unicamente da última hora de sua operação diária.

Reduzir o dia de trabalho, dizia Senior, equivalia a eliminar os lucros, obrigando assim as fábricas a fecharem as portas, com o que os trabalhadores passariam fome.

A classe média acreditava em Senior porque claramente lhe interessava crer em sua doutrina Confiava também nele porque a atividade em que estava empenhada era tão nova e inexplorada que se tornava difícil provar que ele estivesse errado.

A incerteza da burguesia levava-a a ter confiança naquelas teorias, que lhe proporcionavam o máximo de fidúcia e que a encorajavam a pensar que o que estava fazendo era de benefício para toda a humanidade.

Na França, tanto quanto na Inglaterra, economistas políticos e filósofos ajudaram a dar à nova burguesia uma ideologia adequada.

Embora propusesse planos utópicos de reorganização social, Claude Henri de Rouvroy, conde de Saint-Simon (1760-1825) pregava o evangelho doindustrialismo e de industriais (duas palavras que ele criou).

Os discípulos de Saint-Simon estavam entre os principais proponentes, na França, do industrialismo privado e de um sistema financeiro padronizado e centralizado.

Muito mais influente, de modo geral, foi a filosofia positivista de Isidore Marie Auguste François Xavier Comte (1798-1857).

Apesar da reação oposta pela filosofia espirtiualista aos excessos do materialismo, o sensualismo renasceu no século XIX sob o rótulo de positivismo.

Locke fundara-se principalmente na análise psicológica das nossas faculdades para circunscrever na esfera do sensível todas os nossos conhecimentos científicos.

Ao mesmo resultado chegam os positivistas, partindo da necessidade de assinar os limites naturais do conhecimento.

Criticismo e positivismo negam a cognoscibilidade da coisa em si (das Ding an sich) ou essência. Um e outro declaram sem nenhum valor objetivo todo o conhecimento que ultrapassa os dados empíricos ministrados pela observação sensitiva imediata.

Depois de Kant o sensismo só podia reaparecer sob a forma de postivismo.

A filosofia de Comte, tal como o utilitarismo, sustentava que toda a verdade deriva da experiência ou da observação do mundo físico.

Comte rejeitava a metafísica como absolutamente inútil; ninguém pode descobrir a essência oculta das coisas   - por que estas ocorrem assim e não de outra maneira, ou qual é o sentido e o fim último da existência.

Tudo o que se pode realmente saber é como as coisas acontecem, as leis que controlm sua ocorrência e as relações existentes entre elas.

O positivismo derivou seu nome da afirmação de que o único conhecimento de qualquer valor corrente era o conhecimento positivo ou científico.

Comte defendia a tese de que a capacidade da humanidade para analisar a sociedade cientificamente e de prever seu futuro havia chegado a um ponto que em breve possibilitaria à Europa realizar uma sociedade positiva, organizada não em termos de crença, mas de fatos.

Contudo, tal realização não seria simples; atitudes e instituições positivas não poderiam substituir sem luta as da fase metafísica pela qual a Europa tinha acabado de passar.

Dividindo a história do mundo em estados sucessivos (um religioso havia precedido o metafísico) e declarando que a consecução do estágio supremo não era possível sem o tumulto da industrialização, Comte assegurava à classe média  o papel dominante no mundo melhor do porvir.


Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2011.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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