Latim e Direito Constitucional

A seriedade de propósitos refletia-se na devoção burguesa ao ideal da família e do lar. 

A instituição da família tinha importância prática naquelas áreas da Inglaterra, França e Alemanha, onde se esperava que os filhos, genros, sobrinhos e primos assumissem responsabilidades nas firmas familiares, quando chegasse sua vez.

Entretanto, o culto da família não dependia dessas considerações de ordem prática e assumia as dimensões de crença sagrada.

Longe  do burburinho e da confusão do mundo, protegida atrás de construções sólidas e em meio ao conforto de suas ricas alfaias, os chefes de família burguesas retiravam-se a cada noite para gozar os frutos de sua lida diária.

No seio do lar, a vida se fechava num sistema hierárquco e ritualístico em que o marido e pai era o senhor absoluto.

Sua esposa era chamada de companheira e ajudante, mas era sem dúvida, inquestionavelmente, também sua serva. Tinha como tarefa manter a casa funcionando em ordem e harmonia. Registrava as despesas e dirigia as atividades da criadagem  - em geral duas ou três mulheres. Devido à extensão de seus deveres como superintendente, era excluída das labutas diárias de lavar e limpar.

Chamada na Inglaterra vitoriana de angel of the hearth, a esposa da classe média era responsável pela educação moral de seus filhos. No entanto, é provável que não passasse mais de duas ou três horas diárias com eles.

Até serem mandadas à escola, as crianças ficavam sob a custódia de uma ama ou governanta. Grande parte do dia de uma mulher da classe média era passada em companhia de outras mulheres de famílias semelhantes.

A sociedade burguesa europeia criou um complicado sistema de costumes sociais, que envolvia visitas e retribuições a essas visitas. Não se esperava que as mulheres cultivassem o espírito, nem que fossem companheiras intelectuais de seus maridos.

Pelo contrário, eram estimuladas a ser diletantes, e para elas a educação consistia geralmente em pouco mais do que aprender a ler e escrever, com tinturas de aritmética, geografia, história e uma língua estrangeira, adornadas com lições de desenho, aquarela, canto e ou piano.

Inculcava-se nas esposas de classe média a convicção de que apenas em uma área eram superiores ao marido. Uma esposa era a  metade melhor de um casamento burguês porque era tida como pura  - a vestal sem jaça do lar, não maculada por preocupações com o que acontecia fora de sua casa, e decerto imune aos desejos sexuais que  marcavam seu marido, que moralmente lhe era inferior.

A missão da esposa consisia em incentivar a natureza superior do marido. Jamais deveria responder a seus avanços sexuais com igual arrebatamento; para ela, a paixão era presumidamente impossível.

Em vez disso, cabia-lhe persuadi-lo a procurar, através do amor pelo lar e pela família, um sucedâneo para os instintos mais baixos com que a natureza, lamentavelmente, dotara o homem.

Se por acaso ela falhasse  - e o número de cortesãs e prostitutas nas ruas e nos boudoirs clandestinos do século XIX indica que na verdade era frequente ela falhar  - a mulher deveria aceitar a realidade de seu fracasso, como aceitava tudo o mais em sua vida: sem queixas.

No caso de sucumbir aos desejos impróprios de uma mulher e se descobrissem que isso acontecera, não poderia esperar outra coisa senão o total banimento social.

A lei tolerava a infidelidade dos maridos e sempre respeitava os direitos destes à pessoa e às propriedades das esposas. Tratava com desenvoltura uma esposa infiel, concedendo a seu marido tudo quanto ele viesse a desejar em termos de divórcio, propriedades e custódia dos filhos, a fim de compensá-lo pelos agravos e embaraços pessoais que ele sofrera nas mãos da esposa desnaturada.

Os rituais familiares da classe média ajudavam a sustentar essa hierarquia. As refeições diárias, nas quais o chefe da familia ocupava  a cabeceira da mesa, eram preparadas e servidas por criados, que representavam um lembrete constante da posição social da família.

As férias familiares foram uma invenção característica da classe média oitocentista. Graças ao advento das estradas de ferro, excursões de uma ou duas semanas às montanhas ou às praias ficaram ao alcance até mesmo de famílias de recursos medianos. 

Construíam-se suntuosos hotéis, com nomes imponentes  -  PalaceBeau RivageExcelsior - que atraíam clientes da classe média, oferecendo-lhes em escala mais grandiosa exatamente o mesmo tipo de existência confortável e protegida que gozavam em casa. 


Rio de Janeiro, 09 de outubro de 2011. 

____________
N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

Direitos reservados: os textos podem ser reproduzidos, desde que citados o autor e a obra. ( Código Penal, art. 184 ; Lei 9610/98, art. 5º, VII e Norma Técnica NBR 6023, da ABNT ).