Latim e Direito Constitucional

A classe média (burguesia) urbana que surgiu nesse período não era uma unidade homogênea, em termos de ocupação ou de renda.  Numa categoria tão geral, que incluía desde os príncípes do comércio até humildes lojistas, são de grande importância as subdivisões.

Inseria famílias de industriais, como os Peels (algodão), na Inglaterra, e num período posterior, os Krupps (ferro), na Alemanha.

Compreendia financistas, como os internacionalmente famosos Rothschilds(Die Bezeichnung Haus Rothschild) e, numa escala descendente de riqueza e poder, banqueiros e capitalistas em todos os principais mercados monetários da Europa: Londres, Bruxelas, Paris e Berlim.

Abrangia empresários como Thomas Brassey (1805-1870), o magnata britânico das estradas de ferro, e técnicos como o engenheiro Isambard Kingdom Brunel (1806-1859), projetista do vapor The Great Western Railway (GWR).

Compunha-se de burocratas, cujo número cresceu quando os governos começaram a regular o ritmo e a direção da industrialização e a minorar seus mais duros resultados sociais e econômicos.

Continha os membros das profissões liberais já estabelecidos  - em especial no campo do direito, à medida que os advogados se colocavam a serviço dos industriais.

Envolvia os exércitos de gerentes e escriturários, exigidos pelo ímpeto da expansão industrial e financeira, bem como a multidão semelhante de comerciantes e lojistas, necessários ao atendimento das necessidades da população burguesa e urbana, cada vez mais abastada.

Incluía por fim as famílias de todos aqueles abrangidos pelas várias subcategorias ora relacionadas.

No decorrer de uma ou duas gerações, com frequência era possível passar de uma para outra dessas divisões dessas categorias. No entanto, muito mais raro era a passagem da classe operária para a classe média.

A maior parte dos êxitos da classe média originava-se em seu próprio seio  - filhos de fazendeiros, artesãos qualificados ou profissionais liberais.

A mobilidade ascendente era quase impossível sem educação; e esta era um luxo dispendioso, senão inalcançável, para os filhos de um trabalhador. Carreiras abertas ao talento, aquela meta alcançada pela Revolução Francesa, signficavam no mais das vezes empregos de classe média para jovens da classe média que pudessem ser aprovados em exames.

O sistema de provas era um caminho importante para subir na burocracia governamental. Se a transição da classe operária para a classe média não era comum, o mesmo acontecia com a viagem social, igualmente difícil da classe média para a sociedade aristocrática, proprietária de terras.

Essa mudança era difícil sobretudo no continente, onde a divisão entre nobreza e plebe era por tradição mais acentuada. Na Grã-Bretanha, esse tipo de transição social era mais fácil.

Se, como às vezes acontecia, filhos da alta classe média rica eram mandados a escolas e universidades de elite, e se deixavam o mundo comercial ou industrial por uma carreira política, eles conseguiam realizar a passagem.

William Ewart Gladstone FRS FSS (1809-1898), filho de um comerciante de Liverpool, frequentou as universidades de Eton e Oxford, centro de educação elitista, casou-se com uma moça ligada à aristocrática famíliaGreenville, e tornou-se primeiro-ministro da Inglaterra.

Contudo, Gladsone foi uma exceção à regra na Grã-Bretanha, e a Grã-Bretanha era uma situação privilegiada na Europa. Quando chegava a haver transformação social, em geral era em grau menos espetacular.

Não obstante, a classe média europeia animava-se na convicção de que era possível subir na vida através da inteligência, do ânimo forte e da séria dedicação ao trabalho.

Em seu livro  Self-Help, um manual extremamente popular sobre como vencer, o inglês Samuel Smiles (1812-1904) pregava um ensinamento caro à classe média.

No entanto, ainda que seu evangelho declarasse que qualquer pessoa disposta a se esforçar poderia ascender a uma posição de responsabilidde e bem-estar pessoal, e embora com efeito alguns homens conseguissem isto, a ideia não era mais que um mito para a grande maioria. 


Rio de Janeiro, 02 de outubro de 2011. 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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