Latim e Direito Constitucional

Não há nenhum indício de que o operário desqualificado, de menor remuneração, tanto na Inglaterra como no continente, tivesse mais do que uma vida precária. 

Na Inglaterra, os trabalhadores têxteis, desde que contassem com algo como o pleno emprego, podiam, teoricamente, ganhar o suficiente para sustentar uma família.

Não era esse, porém, o caso da  Suíça. Lá o trabalho semelhante rendia apenas metade do necessário. Na Saxônia, grande parcela da população dependia da assistência pública aos pobres ou da caridade.

A sua instabilidade era um dos aspectos mais deprimentes da vida da classe operária naqueles anos. As depressões econômicas eram comuns; quando aconteciam, os trabalhadores eram dispensados por semanas a fio, sem nenhum sistema de seguro-desemprego que os mantivesse.

Metade dos trabalhadores das cidades industriais da Inglaterra estava desempregada nos primeiros anos da década de 1840. Em Paris, 85.000 dependiam da assistência pública. Numa área crítica da Silésia, cerca de 30.00 cidadãos  de um total de 40.000 precisavam de auxílio público.

Não se deve esquecer tampouco o infortúnio daqueles que tinham sido substituídos por máquinas, cujo exemplo mais frisante é o dos tecelões manuais.

Na cidade industrial de Bolton, na Inglaterra, um tecelão manual não conseguia ganhar mais de cerca de três xelins por semana em  1842. Nessa época, estimava-se ser necessário pelo menos vinte xelins semanais para manter uma família de cinco pessoas acima do limite da miséria. Com esse nível de gratificação, os trabalhadores consideravam-se felizes se não morriam de fome.

Estando os trabalhadores obrigados a gastar algo como 65 por cento de suas rendas em alimentação, o consumo per capita de carne do operário médio caiu de cerca de 17 quilogramas por ano no começo do século XIX.

Tais números tornam difícil aceitar as generalizações dos otimistas.

Números de qualquer natureza não levam em consideração a tensão que a vida fabril e urbana causava aos trabalhadores.

Mesmo aqueles que ganhavam trinta xelins por semana bem poderiam imaginar se estavam mesmo em melhor situação, forçados que eram a aceitar a disciplina das fábricas e as condições de vida que lhes eram impostas.

Ainda que a maioria dos que migravam para as cidades industriais não se afastasse muito de suas cidades natais, a distância psicológica que transpunham era tremenda.

Esses fatores qualitativos, na verdade de difícil avaliação, devem ser pesados juntamente com dados mais facilmente quantificáveis antes de se chegar a qualquer conclusão sobre o aumento ou a diminuição do padrão de vida nas cidades em começos do século XIX.

No entanto, quer a vida urbana fosse melhor, quer fosse pior, para um número cada vez maior de pessoas não havia como fugir dela.

Só depois de ser examninada essa vida, é que entenderemos melhor todo o impacto da industrialização e da urbanização sobre aqueles que a experimentram em primeiro lugar.


Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2011. 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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