Latim e Direito Constitucional

Embora a maior parte da população europeia continuasse no interior entre 1800 e 1850, o crescimento das cidades constitui, não obstante, um dos fatos mais importantes da história social desse período. 

As cidades cresceram em tamanho e em número assim que a máquina a vapor permitiu reunir grandes concentrações de homens, mulheres e crianças para trabalhar nas fábricas.

Antes, as oficinas haviam-se localizado em todo o interior do país, em proximidades dos cursos d’água que representavam a principal força motriz para as máquinas.

A máquina a vapor permitiu aos capitalistas não mais dependerem da força hidráulica e concentrarem a produção em cidades grandes, nas quais o transporte era muito mais acessível do que no inteior do país. Assim, era menos dispendioso importar matérias-primas e embarcar os produtos acabados.

Além disso, nas cidades era mais fácil encontrar operários, atraídos em grande número pela esperança, muitas vezes falsa, de obter trabalho contínuo e com remuneração maior que a dos trabalhadores agrícolas.

A industrialização não foi, entretanto, o único motivo para o crescimento das cidades no começo do século XIX. O aumento populacional geral, combinado com a industrialização, obrigou as cidades a se expandirem num ritmo alarmante.

A população aumentou muito entre 1831 e 1841 nas cidades de Londres, Manchester, Paris, Viena e Berlim. O principal resultado desse aumento nestes e em outros centros foi uma medonha superpopulação.

A construção de habitações não acompanhava de modo algum a elevação demográfica. Em muitas das grandes cidades, novas e velhas, homens e mulheres viviam em casas de cômodos, separadas das famílias, que haviam deixado no campo.

Os trabalhadores mais pobres em quase todas as cidades europeias moravam em horríveis quartos de porão, muitas vezes inteiramente destituídos de luz e esgoto.

Os governos faziam o que podiam para incentivar a emigração, a fim de reduzir a superpopulação, e a maior parte dos emigrantes buscava refúgio nas Américas.

Com as cidades assim superlotadas, elas representavam uma ameaça à saúde de seus habitantes.

A classe média fugia tanto quanto possível da doença da fumaça das chaminés, deixando os elementos mais pobres da comunidade isolados e expostos às doenças que grassavam nos bairros operários.

A cólera, o tifo e a tuberculose eram predadores naturais em áreas sem esgotos adequados e sem água corrente, sobre as quais a fumaça de fábricas, estradas de ferro e habitações pairava pesadamente.

Os sucessivos governos adotavam medidas destinadas a sanar os piores desses males, pelo menos para evitar a disseminação de epidemias catastróficas.

Aprovavam-se leis para livrar as cidades de seus piores cortiços, demolindo-os, e para melhorar as condições sanitárias, oferecendo à população água e esgotos.

No entanto, em 1850, esses programas mal haviam começado. Paris, talvez a cidade europeia mais bem provida de água, não podia permitir que seus habitantes tomassem mais de dois banhos por ano; em Londres, os detritos humanos permaneciam acumulados em 250.000 fossas domésticas; em Manchester, apenas um terço das habitações dispunha  de gabinetes sanitários de qualquer espécie.

Essas condições constituem elementos importantes num debate que vem ocupando os historiadores durante as últimas décadas.

O padrão de vida aumentou ou caiu na Europa durante o primeiro século da Revolução Industrial?

A corrente dos otimistas argumenta que os trabalhadores participaram do aumento geral dos padrões de vida que se verificou na Europa de 1800 em diante.

Alguns trabalhadores especializados das novas fábricas, em companhia de alguns artesãos, dedicados aos ofícios mais antigos ainda não afetados pela industrialização, realmente se  beneficiaram de uma ligeira elevação dos salários e de uma queda do custo de vida.

No entanto, variáveis regionais, juntamente com a constante flutuação da procura de mão-de-obra em todos os países, têm levado a maioria dos comentadores a ressalvar suas conclusões. 


Rio de Janeiro, 18 de setembro de 2011.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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