Latim e Direito Constitucional

A Grã-Bretanha continuou a ser o gigante industrial do Ocidente entre 1850 e 1870. No entanto, a França, a Alemanha, a Bélgica e os Estados Unidos assumiram a posição de desafiantes. 

O índice de crescimento da Grã-Bretanha durante esses anos não foi tão grande quanto o da França ou da Alemanha. Mas em 1870 a Grã-Breanha ainda produzia metade do ferro-gusa do mundo.

Ainda que o número de fusos de algodão aumentasse nos Estados Unidos entre 1852 e 1861, a Inglaterra tinha em funcionamento, em 1861, 31 milhões de fusos, em comparação aos 5,5 milhões da França, 2 milhões da Alemanha, 1,3 milhão da Suíça e 1,8 milhão da Áustria.

A maior parte do avanço experimentado pela Europa continental resultou de mudanças contínuas naquelas áreas importantes para a manutenção do crescimento industrial.

A melhoria nos sistemas de transportes, decorrente da disseminação das estradas de ferro, ajudou a estimular um aumento na livre movimentação de mercadorias.


Criaram-se uniões monetárias internacionais e foram eliminadas as restrições à utilização de vias navegáveis internacionais como o Danúbio.

A união alfandegária prussiana (Der Deutsche Zollverein), uma organização destinada a facilitar o livre comércio interno, foi criada em 1818 e ampliada nos vinte anos seguintes, de modo a abranger a maioria dos principados alemães fora da Áustria.

O livre comércio fez-se acompanhar pela remoção de barreiras à liberdade de exercer ofícios e de fazer negócios sem os óbices de regulamentos restritivos.

O controle das guildas e corporações sobre a produção dos artesãos foi abolido na Áustria em 1859 e na maior parte da Alemanha em meados da década de 1860.

As leis contra a usura, a maioria das quais já em desuso, foram revogadas oficialmente na Grã-Bretanha, Holanda, Bélgica e em muitas partes da Alemanha.

Na década de 1850 o estado prussiano renunciou à regulamentação das minas, permitindo que os empresários explorassem os recursos minerais como melhor lhes aprouvesse. Continuou a formação de bancos de investimento, com o estímulo de um considerável aumento da oferta monetária e, portanto, de uma facilitação do crédito, após a abertura das minas de ouro da Califórnia em 1849.

Outro motivo para o aumento da produção na Europa continental foi o desenvolvimento do comércio da matérias-primas. A lã e as peles importadas da Austrália ajudaram a minorar as consequências da escassez de algodão surgida após a eclosão da guerra civil americana e do bloqueio do sul dos Estados Unidos pela União.

Outras importações  - guano do Pacífico, óleos vegetais da África, pirita da Espanha  - fizeram aumentar a escala de produção de  alimentos, ao mesmo tempo em que alteravam e elevavam a manufatura de sabão, velas e tecidos acabados.

Finalmente, as descobertas de novas fontes de carvão e sobretudo na região de Pas-de-Calais, na França e no vale do Ruhr (Das Ruhrgebiet), na Alemanha, tiveram grandes repercussões, com considerável aumento de produção.

Ao chegar 1870, a Europa não havia de maneira alguma voltado as costas à agricultura. Cinquenta porcento da força de trabalho da França continuava no campo. Os trabalhsdores agrícolas eram a maior categoria profissional da Grã-Bretanha na década de 1860.

Grandes áreas do continente europeu – Espanha, sul da Itália, a Europa oriental  - quase não haviam sido tocadas pela Revolução Industrial. E nos países industrializados, muito trabalho ainda era  realizado em minúsculas oficinas ou em casa.

No entanto, embora a Europa não estivesse inteiramente industrializada, era, de longe, a parte do planeta onde maior era o avanço industrial – e isso não havia acontecido por acidente.

A fim de manter sua posição como centro produtor do mundo, a Europa, e particularmente a Grã-Bretanha, procurava fazer com que outras áreas não tivesssem condições de competir.

A Europa usava seu poderio econômico e, quando necessário, sua força militar, para garantir que o mundo permanecesse dividido entre os produtores de bens manufaturados  -  a própria Europa  - e os fornecedores das necessárias matérias-primas  -  todos os outros países.

Muitas vezes essa divisão beneficiou países que ganhavam dinheiro fornecendo as matérias-primas que ativavam a economia europeia.

Plantadores de algodão no sul dos Estados Unidos, de trigo na Ucrânia, de cana-de-açúcar no Caribe  -  todos se satisfaziam com a divisão de trabalho ditado pelo Ocidente industrializado.

Os países que manifestaram sua insatisfação  -  como, por exemplo, o  Egito, que na década de 1830 tentou criar sua própria indústria têxtil algodoeira  - logo eram postos em seu devido lugar por uma demonstração de força.


Ao acreditar em seu direito à liderança industrial do mundo, os europeus ocidentiais nada viam de errado em empregar soldados, se necessário, para fazer os outros compreenderem seu destino.


Rio de Janeiro, 04 de setembro de 2011.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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