Latim e Direito Constitucional

 A construção de uma estrada de ferro era um empreendimento de escala infinitamente maior que a criação de uma fábrica. Exigia um investimento de capital além das posssibilidades de qualquer indivíduo. 

Na Inglaterra uma fábrica poderia custar de 20.000 a 200.000 esterlinos. O custo médio de 27 das maiores importantes linhas férreas construídas entre 1850 e 1853 foi de dois milhões de esterlinos.

A força de trabalho média de uma fábrica variava de 50 a 300 pessoas. A força de trabalho média de uma estrada de ferro, depois de construída, era de 2.500 pessoas.

Como uma ferrovia atravessava as terras de grande número de proprietários rurais, cada um dos quais exigiria, naturalmente, o máximo de indenização que imaginasse poder conseguir, o planejamenteo de uma estrada eficiente e econômica era tarefa complicada e das mais laboriosas.

O empresário ou empreiteiro não tinha de pensar apenas na aquisição do direito de passagem. Tinha de preocupar-se ainda com problemas suscitados pela destruição de consideráveis porções de áreas urbanas já existentes, a fim de abrir espaços para estações e pátios de manobra.

E tinha de escolher um percurso que fosse o mais livre possível de colinas e vales, os quais exigiriam a construção de dispendiosos túneis, cortes e aterros.

Os construtores de ferrovias corriam riscos tremendos. Na maioria das linhas, eram contratados trechos, a preço fixo, com subempreiteiros de pequena experiência.

Um período de mau tempo às vezes atrasava a construção, a ponto que os construtores podiam dar-se por felizes, se conseguissem entregar a obra terminada a um custo de 25 porcento acima do preço contratado. Das trinta principais empreiteiras da linha The London and Birmingham Railway - L&BR, dez faliram inteiramente.

Se a vida de um empreiteiro era marcada pela incerteza, a do operário de construção caracterizava-se pela faina opressiva.
Os navvies - (A palavra navvy – plural navvies – derivava-se de navigator, navegador, termo aplicado aos operários que haviam construído os canais ingleses do século XVIII) -  ingleses, que construíram estradas de ferro não só na Grã-Bretanha mas em todo o mundo, constituíam uma raça extraordinária. Era prodigioso o trabalho que executavam.

Como é pequeníssimo o atrito entre as rodas de um trem e os trilhos, ele é capaz de transportar com facilidade cargas pesadas.

Mas essa falta de atrito deixa de ser vantajosa quando o trem é obrigado a subir ou descer um terreno inclinado onde corre o risco de deslizar.

Daí a necessidade de serem os leitos das ferrovias relativamente planos; e daí a conveniência que tinham os operários de construir aqueles túneis, cortes e aterros que manteriam os leitos planos.

Tanto na Inglaterra como em grande parte do resto do mundo, as ferrovias eram construídas no século XIX quase que inteiramente sem ajuda de máquinas.

Durante a constução da linha The London and Birmingham Railway -L&BR, um engenheiro assistente calculou que o trabalho envolvido naquela obra específica equivalia a erguer 25 bilhões de pés cúbicos de terra e pedra a uma altura de 1 pé; comparou esse volume de trabalho com a incumbência de construir a Pirâmide de Quéops, também conhecida como a Grande Pirâmide, tarefa que, segundo uma estimativa, implicara a movimentação de aproximandamente 16 bilhões de toneladas.

Entretanto, a constução da pirâmide exigia mais de 200.000 homens e duraria vinte anos, ao passo que a  edificação da linha The London and Birmingham Railway - L&BRfoi realizada por 20.000 homens em menos de cinco anos. Traduzindo-se isso em termos individuais, um navvy deveria movimentar uma média de 20 toneladas de terra por dia.

As estradas de ferro foram implantadas sobre uma base quase infinita de esforço e suor humano.


Rio de Janeiro, 28 de agosto de 2011. 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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