Latim e Direito Constitucional

Vários fatores se aliaram para produzir uma atmosfera de modo geral mais favorável à industrialização no continente depois de 1815. 

A população continuou a crescer não só na Europa, como também naquelas áreas que se tornavam cada vez mais dependentes da importação de produtos manufaturados  - a América Latina, por exemplo.

Esses incrementos, que duplicaram os habitantes da maioria dos países europeus entre 1800 e 1850, fizeram com que o continente dispusesse de um número crescente de produtores e consumidores.

Um maior número de moradores não significava necessariamente maior industrialização Na Irlanda, por exemplo, onde não existiam outros elementos necessários, maior população significou menos alimento.

Mas naqueles países que já possuíam uma base comercial e industrial forte, como a França e a Alemanha, o aumento populacional realmente estimulou a adoção das técnicas e métodos de produção que haviam transformado a Grã-Bretanha.

Os transportes melhoraram no continente tanto durante as guerras napoleônicas como depois delas. O Império Austríaco, a Bélgica e a França construíram milhares de quilômetros de estradas.

Nos Estados Unidos, onde a industrialização se processou num ritmo cada vez mais veloz depois de 1830, o total de estradas saltou de 34.000 quilômetros em 1800 para 272.000 em 1856.

Quando essas melhorias se combinaram à introdução do transporte ferroviário na década de 1840, o consequente aumento dos mercados à disposição de todos os países ocidentais estimulou-os a introduzir novos métodos de manufatura que ajudassem a atender à nova demanda.

Nisso, os governos desempenharam no continente um papel mais direto que na Inglaterra.

A racionalização, por Napoleão, das instituições francesas e imperiais havia introduzido na Europa a prática da intervenção estatal. Seu código jurídico (Code Civil des Français), que garantiu a liberdade de contrato e facilitava a criação de sociedades por ações, estimulou outros governantes a criar sistemas semelhantes para a expansão comercial.

Na Prússia, a falta de capitais privados exigiu que o estado controlasse grande parte das minas do país. Nenhum país europeu, excetuada a Grã-Bretanha, foi capaz de construir estradas de ferro sem a assistência financeira do estado.

Também no setor privado, deu-se mais atenção no continente do que na Inglaterra à necessidade de estímulos artificiais à reforma industrial. Foi na Bélgica que se fundou o primeiro banco de investimento em sociedade anônima  - Société Génerale de Belgique -, uma instituição destinada a facilitar a acumulação de capital para investimento na indústria e no comércio.

Os europeus do continente desejavam ainda que o estado criasse sistemas de ensino, cujo objetivo, entre outros, consistia em produzir uma elite educada, capaz de contribuir para o desenvolvimento da tecnologia industrial.

O que a Grã-Bretanha fizera quase por acaso, os países do continente começaram a fazer por deliberação.
Até produzir seus próprios técnicos, o continente foi obrigado a  depender da capacidade britânica.

E outro motivo pelo qual o ritmo da industrialização no continente, bem como nos Estados Unidos, mesmo depois de 1815, continuou muito mais lento do que na Inglaterra foi a relutância natural desta em permitir que seus métodos de produção fossem pirateados por outros países.

Até 1825, os artesãos ingleses estavam proibidos de emigrar; até 1842, muitas máquinas aperfeiçoadas não podiam ser exportadas.

Entretanto, as leis não impediam a migração de técnicos empresários criativos, assim como de suas qualificações pessoais; durante a primeira metade do século XIX, muitos ingleses fizeram fortunas ensinando outros na Europa e na América a fazer o que elrs tinham aprendido sozinhos.

Mas é fora de dúvida que uma escassez inicial de especialistas nacionais retardou a expansão industrial no continente.


Rio de Janeiro, 07 de agosto de 2011. 


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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