Latim e Direito Constitucional

No século XVIII a manufatura na França e na Alemanha concentrava-se em regiões, cuja proximidade das fontes de matérias-primas, cujo acesso a mercados e cujas ligações tradicionais com determinadas atividades haviam feito com que se transformassem em centros industriais.

Flandres e Normandia (França), assim como a Saxônia (Alemanha), eram locais de fabricação de panos de lã; a Suíça, o sul da Alemanha e a Normandia, de artigos de algodão; a Valônia (área em torno de Liège, na Bélgica), o vale do Marne e a Silésia na Alemanha, de ferro.

No entanto, por diversos motivos, essas áreas não experimentaram o mesmo progresso rápido que se verificou na Inglaterra em fins do seculo XVIII. Tampouco foram capazes de imitar, desde logo, o êxito britânico, assim que começaram a perceber as grandes vantagens econômicas que a dianteira da Grã-Bretanha estava lhes proporcionando.

Várias foram as explicações para o retardo na industrialização do continente, sendo a maioria delas apostas às causas que fizeram com que a revolução industrial se desse primeiro na Inglaterra.

Enquanto o sistema de transporte inglês era altamente desenvolvido, isso não acontecia com o da França e da Alemanha.
A França era um país muito maior do que a Inglaterra, seus rios não apresentavam a mesma facilidade de navegação e e seus portos marítimos localizavam-se a maior distância uns dos outros.

A Europa central era de tal modo dividida em pequenos principados, cada qual com seu próprio sistema de impostos e direitos aduaneiros, que se tornava quase impraticável o transporte de matérias-primas ou produtos manufaturados a qualuqer distância maior. Nem mesmo a França estava livre do tipo de regulamentações que dificultavam os transportes.

Acresce que o continente não fora  abençoado com a mesma abundância de matérias-primas que a Inglaterra.

A França, os Países Baixos e a Alemanha tinham de importar lã. A Europa continental, embora mais rica que a Inglaterra em recursos florestais, não possuía um suprimento abundante do combustível que constituía a nova fonte de energia industrial; até então haviam sido descobertos pouos depósitos importantes de carvão.

As distâncias e as distinções entre as camadas sociais e econômicas eram muito mais acentuadas no continente do que na Inglaterra. O dinheiro não tinha, na França e na Alemanha, o mesmo papel de solvente social que representava do outro lado da Mancha.

Antes da Revolução Francesa, os aristocratas do continente não se dispunham a investir em empreendimentos comerciais que, no seu entender, lhes viessem a prejudicar  o prestígio social.

Mesmo depois da Revolução, os franceses da clase média, ainda que teoricamente livres para ascender na escala social e econômica até onde quisessem, ao que parece se satisfaziam em ganhar apenas o suficiente para  manter um negócio de porte modesto.

As reformas constitucionais revolucionárias que haviam beneficiado a baixa classe média, facilitando-lhe a aquisição de propriedades, impedia o desenvolvimento da indústria, ao dispersar o capital nas mãos de incontáveis negociantes em pequena escala.

O espírito empresarial que levava os ingleses a encurralar os concorrentes não estava desenvolvido na França e na Alemanha nos anos que se seguiram a 1815.

Esgotados pela agressividade da guerra e temerosos da desagregação por ela acarretada, os homens de negócios do continente permaneceram muito mais dispostos que os ingleses a manter a manufatura e o comércio na mesma escala de antes. David S. Landes (1924-), em The Unbound Prometheus, tem excelentes páginas sobre o assunto.

O continente europeu não se manteve na ociosidade, enquanto a Inglaterra  assumia a dianteira industrial. O ritmo da mecanização estava aumentando  na década de 1780. Entretanto a Revolução Francesa e as guerras que se seguiram detiveram o crescimento que poderia ter ocorrido.

Batalhas travadas em solo francês, alemão e italiano destruíram fábricas e maquinaria. Ainda que a produção de ferro crescesse para atender às exigências das guerras, as técnicas não se modificavam. O comércio foi gravemene prejudicado pela destruição da marinha mercante da França, por parte dos ingleses, e pelo  bloqueio continental imposto por Napoleão.

Tudo indica que a reforma revolucionária que trouxe maior benefício ao progresso industrial na Europa continental tenha sido a eliminação das restrições ao movimento de capital e de mão de obra; por exemplo, a abolição das corporações de ofício e a redução do número de barreiras tarifárias.

No balanço geral, porém, as guerras revolucionárias e as napoleônicas foram um claro óbice ao desenvolvimento industrial no continente, ao mesmo tempo em que o intensificavam na Inglaterra.


Rio de Janeiro, 31 de julho de 2011.

 

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