Latim e Direito Constitucional

Foi na Inglaterra que começou a Revolução Industrial. A economia inglesa havia progredido mais que a de qualquer outro país em direção à abundância.

Um menor número de indivíduos estava empenhado na luta mesquinha para apenas sobreviver. Mais pessoas estavam em condições de vender os excedentes das mercadorias que produziam a um mercado que se expandia constantemente. Outro grande número dispunha de dinheiro suficiente para adquirir os bens oferecidos no mercado.

Ainda que mal remunerados, os trabalhadores ingleses gozavam de um padrão de vida superior ao dos seus companheiros do continente. Comiam pão branco, e não o preto, além de carne, com certa regularidade.

Já que menor proporção de sua renda era gasta em alimentos, podiam ocasionalmente dispor de algum dinheiro para artigos que eram comprados, e não feitos em casa.

Outro fator desse acréscimo de fartura foi o número de leis para o fechamento de terras agrícolas aprovadas pelo parlamento inglês, simpático ao capitalismo, na última metade do século XVIII.

Embora privasse os trabalhadores agrícolas do direito de partilhar o uso das terras comuns, como tinham feito no passado, esse fechamento de campos, pastos e terrenos ermos e sua transformação em terras cercadas, em regime de propriedade individual e administração de capitalistas, significava um aumento de oferta de alimentos para uma população crescente e cada vez mais urbanizada.

Indício adicional da fartura era sua florescente acumulação de capital excedente, derivado de investimentos em terras e em comércio, e disponível para novas inversões que financiassem outros empreendimentos econômicos.

Os capitalistas ingleses dispunham de crédito suficiene para custear e manter uma revolução industrial.

Isso necessitava de alguma coisa a mais, além de dinheiro. Exigia hábitos mentais que encorajassem investimentos em atividades arriscadas, mas que encerravam enormes possiblidades de lucro.

A busca da riqueza na Inglaterra, mais do que no continente, era vista como um digno objetivo na vida.

Desde a Renascença, a aristocracia continental havia cultivado a ideia de conduta cavalheiresca, em parte para se proteger dos avanços sociais que vinham de baixo.

Os aristocratas ingleses, cujos privilégios eram modestos em comparação com os dos nobres do continente, nunca deixaram de respeitar aqueles que ganhavam dinheiro; tampouco se esquivavam a ganhar eles próprios o que pudessem. Investiam e especulavam.

A pressa que se deram para cercar suas terras refletia essa simpatia pelo capitalismo agressivo. Abaixo da aristocracia, era ainda mais tênue a barreira que separava os comerciantes urbanos da nobreza rural.

Na maiorria, os homens que atuaram como pioneiros nos primeiros anos da Revolução Industrial vinham da pequena nobreza ou da classe dos yeomen, termo inglês que se referia a um fazendeiro que cultivava sua própria terra (a farmer who owned and worked on his own land in former times). Umyeoman também poderia ser um guarda, vigia ou oficial subordinado (an officer in the US navy who often has secretarial duties).

A um grau desconhecido no continente, homens com esse tipo de antecedentes sentiam-se à vontade para subir até onde os levassem, na escala social e econômica, as suas aptidões.

Mas essa Inglaterra não estava isenta de esnobismos sociais: os nobres desprezavam os banqueiros e estes menoscabavam os artesãos. O desdém de um nobre poderia ser atenuado pelas origens de seu próprio avô, empregado numa casa contábil. E o banqueiro de bom grado emprestaria dinheiro ao artesão, se estivesse convencido de que a sua invenção poderia render a ambos uma fortuna.

Os ingleses, como nação, não temiam os negócios. Respeitavam as pessoas sensatas, práticas e bem-sucedidas financeiramente.

Robinson Crusoé, o empreendedor numa ilha deserta, era um de seus modelos. No romance de Daniel Defoe, publicado em 1719 (cujo título completo era The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, of York, Mariner: Who lived Eight and Twenty Years, all alone in an uninhabited Island on the Coast of America, near the Mouth of the Great River of Oroonoque; Having been cast on Shore by Shipwreck, wherein all the Men perished but himself. With An Account how he was at last as strangely deliver’d by Pyrates), o herói havia usado a inteligência para dominar a natureza e tornar-se senhor de uma florescente economia. Seu talento não era nada diminuído por ser de natureza terrena. Longe disso.

É nossa vaidade que nos impele adiante” (It’s our vanity that drives us forward) declarou o economista Adam Smith (1723-1790), defensor do capitalismo de laissez faire, laissez aller, laissez passer. E cabia agradecer a Deus, por essa abençoada vaidade! 

O desejo individual de sucesso agia no sentido de gerar prosperidade para a nação como um todo. 


Rio de Janeiro, 26 de junho de 2011. 


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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