Latim e Direito Constitucional

O fim do século 16 assinalara a culminação de uma longa era da música coral e polifônica. Mas em 1594, com a morte de Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), seu mais talentoso e avançado representante, instalou-se nova reação tão forte que o estilo polifônico se tornou obsoleto.

Um novo ideal, o de uma voz solista acompanhada por um dentre vários instrumentos musicais, varreu a Itália e passou a ser conhecido como monodia. Era a percepção, por parte dos compositores italianos, de que os sentimentos intensos de uma pessoa não podem ser expressos adequadamente por um coro de muitas vozes.

A criação da ópera alcançou sua primeira manifestação poderosa emL'Orfeo   (1607), de Claudio (Giovanni Antonio) Monteverdi (1567-1643), personalidade musical dominante na primeira metade do século 17. Assim a ópera expressava a dedicação do barroco à grandiosidade, à complexidade e à orientação.

Johann Sebastian Bach (1685-1750) tornou-se o símbolo do gênio musical alemão. Combinava uma imaginação ilimitada e um imenso intelecto com poderes heroicos de disciplina e uma ânsia insopitável de trabalho. Tornou-se mestre da maioria dos tipos e estilos de música, desde pequenas peças de dança até gigantescas obras corais.

Como músico de igreja, seu dever era compor peças novas para elaborados cultos nos domingos e feriados. Por isso, a maior parte de sua obra consiste em cantatas, oratórios, paixões e missas. A música que compôs para os evangelhos de são João e são Mateus representa o auge insuperável desse gênero.

Compositor instrumental, criador de obras imponentes para órgão e cravo, bem como de vigorosos concertos e sonatas para várias combinações de instrumentos, sua música reflete a atenção à ordem racional e à harmonia matemática, que estavam no âmago da revolução intelectual.

Georg Friedrich Händel (1685-1759) viveu quase meio século em Londres, onde durante anos dirigiu uma companhia que só produzia óperas italianas.

Depois de décadas percebeu que deveria voltar-se para alguma coisa condizente com o gosto inglês, como o oratório, drama musical destinado a ser executado em forma de concerto, como o Messiah. Seus oratórios viris e que revelam heroísmo simbolizavam o povo inglês, o orgulho por suas instituições e a realização de sua grandeza nacional.

Depois de meados do século 18 o centro do mundo musical deslocou-se para Viena, onde um grupo de compositores talentosos realizou uma extraordinária síntese estilística, conciliando a gravidade barroca, o encanto rococó e a excitação pré-romântica na forma depois rotulada de clássica.

Christoph Willibald Ritter von Gluck (1747-1787) reformou a ópera séria, então em declínio, dando-lhe o cunho de um drama nobre que traz à mente o tom da antiguidade clássica.

A atração pela ópera cômica (buffa) italiana forçou uma fusão com a séria e essa aliança atingiu o ponto culminante nas óperas de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), ao passo que a música de câmara e orquestral alcançou um novo nível formal e expressivo sob a liderança de Franz Joseph Haydn(1732-1809).

O século 18 estava cheio de música, porém sua organização social obstava seriamente o trabalho do artista criador. Händel, que dirigiu sua própria companhia e deixou um espólio respeitável, constituiu exceção à regra geral.

Na maioria dos casos, se um compositor ou músico não era empregado da corte ou se não fosse um virtuose de fama internacional ou professor renomado, corria o risco de ser esmagado no esforço de ganhar a vida.


Mozart, enquanto menino-prodígio, era adorado e admirado, mas quando deixou o emprego do arcebispo de Salzburg para aventurar-se como artista autônomo em Viena, foi com enorme dificuldade que conseguiu se manter até os 35 anos de idade, quando morreu.


Apesar de suas esplêndidas sonatas e sinfonias, seu núcleo estilístico ainda era constituído pela música dramática da ópera. Mozart utilizou a forma operística para moldar os caracteres, os destinos e os conflitos dos seres humanos de uma maneira que levou também as outras formas a se tornarem permanentes.

As grandes obras de Mozart – Die Hochzeit des Figaro ou Figaros Hochzeit,Der bestrafte Wüstling ou Don GiovanniDie Zauberflöte  – proporcionam um centro do qual outras formas, como a sonata para piano, o quarteto, o quinteto, o concerto ou sinfonia, foram posteriormente derivadas por seus sucessores

Franz Joseph Haydn era feito de mais duro estofo que Mozart

Seu passado camponês tornava-o tenaz e obstinado. Se Mozart simbolizava um espírito aristocrático, Haydn era o epítome do plebeu liberado. Era devido às suas personalidades diametralmente opostas que os dois músicos se davam tão bem. Cada um complementava o outro, aprendia como outro; na verdade, eram amigos. Sua arte transmite impressões de aldeia e do campo, mas também a elegância da principesca casa austríaca que o protegeu durante muitos anos.

São tão numerosas as composições de Haydn que nunca se empreendeu uma edição completa delas. Incluem muitas óperas e missas, oratórios, concertos, mais de 80 quartetos de cordas e mais de cem sinfonias. Foi ele quem estabeleceu os princípios técnicos e estilísticos da construção sinfônica, criando com Mozart o padrão da orquestra sinfônica que permaneceu como a base de toda a futura evolução da música.

As vidas de Mozart e Haydn sugerem os avanços e as limitações da revolução intelectual. A dependência de Haydn da proteção aristocrática e a incapacidade de Mozart para viver longe dela deixam claro que o mundo do iluminismo continuava a ser um mundo governado pela posição social e pelo privilégio.

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2011.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola,

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