Latim e Direito Constitucional

A revolução intelectual celebrou triunfo não só da razão como também da ciência. A Real Sociedade de Londres (Royal Society ou The Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge (1662) e a Academia Francesa de Ciências (L’Académie des sciences, conhecida como lAcadémie royale des sciences), alguns anos mais tarde, estimularam a publicação de tratados científicos e o intercâmbio de conhecimentos.

Sir Isaac Newton (1642-1727), por exemplo, criou uma série de tábuas para navegação, nas quais poderiam ser previstas como exatidão as sucessivas posições da lua entre as estrelas. Inventou o sextante, para medir essas posições e assim determinar a latitude e a longitude.

Com base nas descobertas de William Gilbert, também conhecido comoGilbert, (1544-1603), sobre as propriedades do ímã, de Alessandro Giuseppe Antonio Anastasio Gerolamo Umberto Volta (1745-1827) que construiu a primeira pilha e em função da invenção da garrafa de Leyde (1746), é queBenjamin Franklin (1706-1790) pôde demonstrar que o raio e a eletricidade são idênticos e conseguiu carregar essa garrafa com a eletricidade atmosférica.

Robert Boyle (1627-1691) pode ser considerado o fundador da química moderna. Na sua obra The Sceptical Chymist: ouChymico-Physical Doubts & Paradoxes contribuiu para transformar a química numa ciência pura, ao estudar a distinção entre uma mistura e um composto, ao aprender muito sobre a natureza do fósforo e ao extrair álcool da madeira.

Mais tarde, após a descoberta do oxigênio por Joseph Priestley (1733-1804), outro inglês Henry Cavendish (1731-1810) demonstrou que o ar e a água, considerados desde a antiguidade como elementos, são uma mistura e um composto, sendo o ar formado de oxigênio e nitrogênio e a água de oxigênio e hidrogênio.

Um francês Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) deu nome ao oxigênio e ao hidrogênio e afirmou ser a própria vida, em essência, um processo químico. Mas seu maior feito foi a descoberta da lei da conversão da massa. Em consequência do seu gênio, a química tornou-se uma verdadeira ciência.

Igualmente as ciências biológicas não foram descuradas. Robert Hooke(1635-1703) descreveu a estrutura celular das plantas. Marcello Malpighi(1628-1694) demonstrou a sexualidade das plantas e comparou a função das folhas com a dos pulmões dos animais. Antoni van Leeuwenhoek  (1632-1723) descobriu os protozoários e as bactérias e fez a primeira descrição do espermatozoide humano.

Na embriologia, Jan Swammerdam (13537-1680) descreveu a história natural de certos insetos, desde o estado de larva até à maturidade e comparou a transformação do girino em rã ao desenvolvimento do embrião humano.

Carl von Linné ou Carolus Linnaeus (1707-1778), em suas obras Systema Naturae e Philosophia Botanica dividiu os seres naturais em reinos mineral, animal e vegetal, subdivididos em classes, gêneros e espécies. Cada animal e planta foram designados por dois nomes científicos, sendo o primeiro o gênero e o segundo a espécie. Daí ter chamado o homem de homo sapiens.

Outro gênio da biologia descritiva foi Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, (1707-1788). Sua obra L’Histoire Naturelle, générale et particulière, avec la description du Cabinet du Roi tratava sobretudo do homem e de outros vertebrados. Ele reconheceu a estreita relação entre o homem e os animais superiores, assim como admitiu a possibilidade de que todo o conjunto das formas orgânicas descendesse de uma única espécie.

O desenvolvimento da fisiologia e da medicina progrediu vagarosamente, por várias razões.

Uma delas foi o preparo insuficiente dos médicos. Muitos dos quais haviam começado sua carreira profissional quase sem outro adestramento além de uma espécie de aprendizado sob a orientação de um clínico mais velho. Outra foi o descrédito geral da cirurgia, tida como um mero ofício, como o do barbeiro ou do ferreiro.

A despeito desses obstáculos, houve avanços. Por volta de 1680, Malpighi eLeeuwenhoek observaram diretamente o fluxo do sangue através da rede de capilares que ligam as artérias e as veias. E Thomas Sydenham (1624-1689) propôs uma nova teoria da febre como um processo natural para expelir matérias mórbidas do organismo.

Durante o século 18 os progressos da medicina foram um tanto mais rápidos. Conquistas notáveis figuram a descoberta da pressão sanguínea, o início da histologia ou anatomia microscópica, o desenvolvimento da autópsia como auxiliar no estudo das moléstias e a identificação da escarlatina como uma doença diferente da varíola e do sarampo.

Mas os marcos do progresso da medicina foram a adoção da inoculação e o desenvolvimento da vacinação contra a varíola.

A primeira aplicação sistemática do processo no mundo ocidental deveu-se aos esforços de Cotton e Increase Mather, que imploraram aos médicos de Boston que inoculassem seus pacientes, na esperança de sustar uma epidemia de varíola que se manifestara em 1721.

Em 1796, Edward Anthony Jenner verificou ser desnecessária a inoculação direta de seres humanos com o vírus mortífero da varíola: uma vacina fabricada no corpo do animal poderia ser tão eficaz quanto ela e tinha muito menos probabilidade de acarretar resultados desastrosos.

As várias possibilidades assim abertas para a eliminação das doenças contagiosas pareceram confirmar a convicção do iluminismo quanto à capacidade do homem para fazer as leis da natureza atuarem no sentido de melhorar a condição humana.

Rio de Janeiro, 02 de janeiro de 2011.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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