Latim e Direito Constitucional

No alvorecer da fase inicial da era moderna a Rússia era uma mescla de características europeias e ocidentais, pois grande parte de seu território havia sido colonizada por nórdicos no início da Idade Média. 

De Bizâncio haviam-se derivado a religião, o calendário e o sistema de escrita russos. O regime de governo, com seus boiardos ou magnatas e servos, não era muito diferente do existente na Europa ocidental.

Por outro lado, grande parte da cultura, e muitos de seus costumes tinham claramente origem não europeia. As artes russas limitavam-se quase inteiramente à pintura de ícones e à arquitetura religiosa, caracterizada pela cúpula em forma de cebola.

Não havia praticamente qualquer literatura em língua russa, a aritmética era quase desconhecida, não se usavam os algarismos romanos e os mercadores faziam suas contas com o ábaco.

Tampouco as maneiras e os costumes eram comparáveis aos do Ocidente. As mulheres das classes superiores usavam véus e viviam confinadas. Os homens usavam barbas ondulantes e trajes longos. As boas maneiras na mesa eram tidas como supérfluas. Fases de farras e esbórnias alternavam-se com períodos de penitência e expiação.

Mesmo assim a Rússia não estava inteiramente apartada da Europa. Já no século 14 comerciantes alemães da Liga Hanseática (die Hanse) faziam algum comércio com pelos e âmbar da Rússia.

Na década de 1550 mercadores ingleses descobriram o mar Branco (Бе́лое мо́ре) e tornaram Arkhangelsk (Арха́нгельск ou Archangel)um porto de entrada, através do qual suprimentos militares podiam ser trocados por algumas mercadorias russas e até por produtos da Pérsia e da China. Mas com o mar congelado durante a maior parte do ano, era ínfimo o volume desse comércio.

Ainda no século 13 a Rússia era um conjunto de pequenos principados, atacados a oeste pelos lituanos, poloneses e pelos cavaleiros teutõnicos (Deutsche Orden). As operações destes últimos eram parte da famosa Drang nach Osten (avanço para leste), que ocupou lugar tão relevante na história alemã. 

A leste a Rússia era ameaçada pelos mongóis (tártaros), que haviam fundado um grande império na Ásia central, e que acabou por incluir tanto o norte da Índia quanto a China.

Em 1237 os mongóis deram início a uma invasão que os levou a conquistar quase toda a Rússia O domínio mongol foi, em muito sentidos, um desastre, e marcou o surgimento de uma orientação mais vigorosa para a Ásia.

Daí em diante a Rússia afastou-se cada vez mais da Europa e lançou os olhos para além dos Urais como a arena onde se desenrolaria sua história futura. Seus habitantes miscigenaram-se com mongóis e adotaram alguns elementos de sua cultura.

Em 1380 o poder mongol declinou. Um exército russo derrotou esse povo e iniciou um movimento no sentido de expulsá-los de volta à Ásia.

O grão-ducado de Moscou assumiu essa liderança. Dominado por governantes fortes, vinha aumentado o seu poder desde algum tempo. Localizado junto das fontes dos grandes rios que corriam para sul e para norte, gozava de vantagens geográficas muito superiores às dos demais estados. Isso sem falar que ali fora instalada recentemente a sede da igreja russa.

Ivã o Grande (1440-1505) foi o primeiro dos príncipes de Moscou a arvorar-se em czar (césar) da Rússia. Tomando como noiva a sobrinha do último imperador bizantino, que havia perecido na captura de Constantinopla em 1453, ele proclamou-se como seu sucessor pela graça de Deus.

Adotou como sua insígnia a águia bizantina bicéfala e mandou buscar arquitetos italianos para trabalharem num enorme complexo de edifícios, o Kremlin, uma demonstração da nova independência e da grandeza da Rússia.

Admitindo sua intenção de recuperar os antigos territórios que haviam sido perdidos para invasores estrangeiros, Ivã forçou o príncipe da Lituânia a reconhecê-lo como soberano de “todas as Rússias” e expulsou os tártaros da Rússia setentrional. 

Rio de Janeiro, 17 de outubro de 2010.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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