Latim e Direito Constitucional

A forma especial do protestantismo criado por Lutero não logrou grande popularidade fora de seu ambiente nativo. Mesmo na Alemanha não triunfou em toda a parte, pois a maior parte do sul do país permaneceu católico. Fora da Alemanha o luteranismo só se tornou religião oficial na Dinamarca, Noruega e Suécia;

Mas a força da revolta protestante se fez sentir em diversos outros países, sobretudo na Suíça, onde a consciência nacional se vinha fortalecendo há séculos.

Em 1499, os pastores e camponeses dos cantões suíços tinham obrigado o imperador austríaco Maximiliano (Maximilian I. von Habsburg -- 1459-1519) a reconhecer-lhes a independência, não só em relação aos Habsburgos mas também ao Sacro Império Romano (Heiliges Römisches Reich  - Sacrum Romanum Imperium). Livrando-se do jugo de um imperador estrangeiro, não quiseram submeter-se mais a um papa também estrangeiro.

As cidadee de Zurique (Zürich), Basileia (Basel), Berna (Bern) e Genebra (Genftinham-se transformado em florescentes centros comerciaisSeus prósperos comercianes encaravam com desprezo crescente o ideal católico da glorificação da pobreza. Igualmente os espíritos cultos tinham uma sadia desconfiança das superstições clericais. Sem falar que a Suíça fora escorchada pelos vendedores de indulgência em medida apenas inferior à Alemanha.

Ulrich Zwingli (1484-1531) foi o pai da revolução protestante na Suíça. Seu objetivo ao entrar no clero era aproveitar o ensejo que isso lhe traria para cultivar seus pendores literários. Ao devotar-se à religião, dedicava suas energias à reforma da Igreja. Aceitou quase todos os ensinamentos de Lutero. O pão e o vinho para ele eram meros símbolos do corpo e do sangue de Cristo. Assim, ele reduziu o sacramento da encaristia a uma simples comemoração.

Quase todo o norte  da Suíça abandonou a antiga fé. Daí estendeu-se a Genebra, que possuía dois governos: o bispo local e o conde de Savoia (Das Haus Savoyen). Quando estes nobres governantes conspiraram para tornar mais absoluto o seu poder, os citadinos rebelaram-se contra elas, expulsando-os da cidade por volta de 1530. Não tardou muito para que os pregadores protestantes de Zurique e Berna começassem a chegar a Genebra.

Depois desses fatos, o francês João Calvino (Jean Calvin  -- 1509-1564) chegou à cidade, depois de ter frequentado a universidade de Paris. Em obediência ao pai, foi estudar direito em Orléans (Orléans), onde caiu sob a influência de discípulos de Lutero.

Em 1534, já em Genebra, começou a pregar e a arregimentar seus adeptos, de forma que em 1541 tanto o governo como a religião tinham caído completamente sob o seu domínio.Genebra transformou-se numa oligarquia religiosa. A autoridade suprema era exercida pela Congregação do Clero, que preparava as leis e as submetia ao Consistório par ratificação.

Sua função era a punição da conduta antissocial e também uma devassa constante na vida particular dos indivúduos, visitando cada casa, sem aviso prévio, a fim de investigar os hábitos dos moradores.

Dançar, jogar cartas, ir ao teatro, trabalhar ou divertir-se no Dia do Senhor, tudo isso era punido como obra de Satanás. Crimes capitais eram o homicídio, a traição, o adultério, a fetiçaria, a blasfêmia e a heresia. Nos seus 4 primeiros anos de governo, houve 58 execuções numa população de apenas 16.000 habitantes.

A essência da teologia de Calvino está contida na Instituição da religião cristã (L’Institution de la religion chrétienne) de 1536. Concebia o universo dependente de um Deus onipotente que criou todas as coisas para a sua maior glória. Devido à queda original, todos os seres humanos são pecadores por natureaa. Deus destinou alguns homens à salvação e condenou todos os demais aos tormentos do inferno. Suas almas estão marcadas com a bênção ou a maldição divina mesmo antes de nascer.

Tal como os antigos hebreus, viam  a si mesmos como instrumentos escolhidos por Deus com a missão de ajudar no cumprimento de seus desígnios na terra. Não lhes cabia esforçar-se por sua salvação, mas sim pela glória de Deus. Nenhuma religião cultivou maior zelo na conquista da natureza, na atividade missionária ou na luta contra a tirania política. E com o Senhor a seu lado, não se amedrontavam com os leões que pudessem espreitar-lhe o caminho.

A religião de Calvino diferia da de Lutero em alguns aspectos. Em primeiro lugar era mais legalista. Lutero dava ênfase à orientação da consciência individual. O ditador de Genebre acentuava a soberania da lei. Concebia Deus como um poderoso legislador que houvesse transmitido, nas escrituras, um conjunto de regras que deveriam ser obedecidas ao pé da letra.

A fé calvinista estava mais próxima do Velho Testamento que a luterana. Com relação ao domingo, Lutero exigia que seus adeptos fossem à igreja, mas que não se abstivessem de qualquer prazer ou trabalho durante o resto do dia. Calvino revivou o sábado judaico com seus rigorosos tabus.

A religião de Genebra estava mais associada aos ideais do novo capitalismo. As simpatias de Lutero voltavam-se para os nobres e censurou acremente a cobiça dos magnatas das finanças.

O calvinismo representava uma fase mais radical da revolução protestante. Lutero havia conservado muitas características do culto romano e até alguns dogmas católicos. Calvino rejeitou tudo o que lhe cheirasse a  papismo.

Ao exluir qualquer traço do sistema episcopal, as congregações escolhiam seus próprios presbíteros e pregadores, enquanto um colégio de ministros governaria toda a igreja. Assim foram eliminados o ritual, a música instrumental, os vitrais, os quadros e as imagens. A religião ficou reduzida a quatro paredes nuas e um sermão. Até a comemoração do Natal e da Páscoa era serveramente proibida. 

A popularidade do calvinismo expandiu-se pela maioria dos países da Europa ocidental onde o comércio e as finanças se haviam tornado atividades preponderantes. Era a religião dos citadinos, embora atraísse, naturalmente, convertidos de outras camadas sociais. Teve enorme influência em moldar a ética dos tempos modernos.

Rio de Janeiro, 04 de abril de 2010. 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero ccidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1

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