Latim e Direito Constitucional

Após o fracasso da revolta dos camponeses, um grupo de reformadores radicais, insatisfeitos com o crescente conservadorismo de Lutero, começou a formar o descosido movimeto que recebeu o nome de anabatismo.

O nome significa rebatismo e provém do fato de os anabatistas insistirem que o batismo só deveria ser ministrado na idade adulta ou da razão.

Mas isso não era sua doutrina essencial. Extremamente individualistas em matéria de religião, tomavam ao pé da letra o ensinamento de Lutero de que cada um tem o direito de seguir os ditames de sua própria consciência.

Rejeitavam a teoria católica do sacerdócio e negavam a necessidade de qualquer clero, sutentando que cada indivíduo deveria seguir a orientação da “luz interior”. Não admitiam que a revelação divina tivesse cessado com a redação do último livro do Novo Testamento, ao afirmar que Deus continuava a falar diretamenteo a alguns de seus servos.

Atribuiam muita importância à interpretação literal da bíblia, até mesmo de suas passagens mais herméticas. Acreditavam que a igreja deveria ser uma comunidade de santos e exigiam de seus seguidores que rejeitassem a mentira, a irreverência, a gula,  a lascívia e a ingestão de bebidas alcoólicas.

Muitos de seus adeptos julgavam estar iminente o fim do mundo e que em breve se estabeleceria na terra o reino de Cristo de justiça e paz, no qual teriam um lugar preeminente.

Os anabatistas eram mais do que um simples grupo de extremistas religiosos; representavm também as mais radicais tendências sociais de seu tempo. É assim que condenavam a acumulação de riqueza e ensinavam ser dever dos cristãos partilhar os seus bens entre si. Além disso, não reconheciam qualquer distinção de condição ou classe, proclamento que todos os homens eram iguais aos olhos de Deus.

Muitos deles também abominavam os juramentos, condenavam o serviço militar e recusavam pagar impostos a governos que se empenhassem em guerras.

De modo geral, abstinham-se de atividade política e exigiam completa separação entre Igreja e Estado. Suas doutrinas representavam a manifestação externa do fervor revolucionário gerado pelo movimento protestante.

Para infelicidade do movimento, em 1534 um grupo muito pouco representativo de extremistas anabatistas conseguiu apoderar-se do governo da cidade de Münster, no noroeste da Alemanha.

Alguns extremistas ocorreram de regiões vizinhas e Münster se tornou uma nova Jerusalém, onde eram postas em prática todas as fantasias acumuladas no setor lunático do movimento.

As propriedades dos não-crentes foram confiscadas e introduziu-se a poligamia.
Um ex-alfaiate, de nome João de Layden, (Jan van Leiden -- 1509-1536), assumiu o título de rei, proclamando-se sucessor de Davi, com a missão de conquistar o mundo e destruir os gentios.

Ao cabo de pouco mais de um ano Münster foi recapturada pelas forças católicas e os chefes de Sião morreram entre horríveis torturas.

Como consequência evidente desse episódio, o anabatismo ficou inteiramente desacreditado e todos os seus adeptos foram submetidos a cruéis perseguições em toda a Alemanha e onde quer que fossem encontrados.

Entre os pouquíssimos que sobreviveram estavam alguns que se agruparam na seita dos menonitas, nome derivado de seu fundador, um holandês chamado de Menno Simons (1480-1561).

Essa seita, dedicada ao pacifismo e à simples “religião do coração” do anabatismo original, continua a existir ainda hoje.

Vários princípios anabatistas foram também revividos posteriormente por grupos religiosos como os Quakers (The Religious Society of Friends) e diversas seitas batistas e pentecostais.

Rio de Janeiro, 28 de março de 2010.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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