Latim e Direito Constitucional

Em sua última fase, a Renascença foi acompanhada por um outro movimento que, de modo um tanto mais nítido, prenunciou a Idade Moderna. 

Dividida em dois espaços, compreendeu a revolução protestante em 1517, que levou a maior parte da Europa setentrional a separar-se da Igreja romana, além da contrarreforma em 1560, a qual efetuou uma alteração profunda em algumas das características mais notáveis do catolicismo de fins da Idade Média.

A Renascença e a Reforma tiveram íntima relação entre si. Foram produtos de poderosa corrente de individualismo que ganhou ímpeto nos séculos 14 e 15; tiveram um fundo semelhante de causas econômicas, no desenvolvimento do comércio e na ascensão de uma sociedade urbana; compartilharam o caráter de um retorno às fontes originais: no primeiro caso, às realizações literárias e artísticas dos gregos e romanos; no segundo, às Escrituras e às doutrinas dos Padres da Igreja.

Mas a essência da Renascença era a devoção ao humano e ao natural, sendo a religião relegada a um lugar relativamente subalterno. O espírito da Reforma caracterizava-se por ser extraterreno e pelo desprezo pelas coisas da carne como inferiores às do espírito. 

Para os humanistas, a natureza do homem era intrinsecamente boa; para os reformadores, era indizivelmente corrupta e depravada. Os corifeus da Renascença acreditavam na razão e na tolerância; os adeptos de Martin Luther (1483-1546)  e   Jean Calvin (1509-1564)  encareciam a fé e o conformismo.
O passado para os humanistas era a antiguidade greco-romana. Os reformistas estavam interessados na volta aos ensinamentos de Paulo e Agostinho. Movimento aristocrático, a Renascença teve menos influência sobre o homem comum do que a Reforma.

Em ruptura com a civilização da Idade Média, os reformadores rejeitavam em bloco as teorias e práticas fundamenttais do cristianismo do século 13. Repugnavam-lhes a religião simples de amor e altruísmo para melhoria do homem, pregada por  Francesco d'Assisi, nascido como Giovanni di Pietro Bernardone (1181-1226), assim como os mistérios dos dogmas sacramentais ou as pretensões de Innocenzo III, nascido como Lotario dei Conti di Segni(1160-1216), ao poder espiritual e temporal.

Embora alguns humanistas tenham escrito sob a influência do orgulho nacional, a maioria era levada por considerações inteiramente diversas. Muitos desdenhavam a política, interessando-se somente pelo homem enquanto indivíduo; outros, como Desiderius Erasmus (1446-1536) eram rigorosamente internacionalistas.

Os reformadores protestantes dificilmente teriam feito muitos prosélitos, se não houvessem associado a sua causa à poderosa maré montante dos ressentimentos nacionais da Europa setentrional contra um sistema eclesiástico que passara a ser visto como sendo de caráter predominantemente italiano.
A Reforma pode ser assim considerada como um dos limiares do mundo moderno.

Para a maioria dos seguidores de Martin Luther, o movimento foi uma rebelião contra os abusos da Igreja católica.

Muitos dos clérigos desssa época tinham educação insuficiente. Tendo obtido a posição por meios irregulares, eram incapazes de entender o latim da missa que deveriam celebrar.

Além disso, um número considerável deles levava vida extremamente mundana. Enquanto alguns papas e e bispos viviam numa magnificência principesca, às vezes os padres humildes procuravam aumentar as rendas de suas paróquias, mantendo tabernas, casas de jogos ou outros estabelecimentos lucrativos.

Esquecidos dos votos de castidade, monges e alguns membros indiferentes do clero regular mantinham amantes. Diz-se que Innocenzo III, que reinou cerca de 25 anos, teve 8 filhos, vários dos quais nascidos antes de sua eleição ao papado.

Outros males eram relacionados à venda de dignidades eclesiásticas e dispensas. Calcula-se que o papa Leone X, nascido como Giovanni di Lorenzo de' Medici (1475-1521), fruía uma renda anual superior a um milhão de dólares, resultante da venda  de mais de 2.000 cargos eclesiásticos.

A venda de dispensas era uma segunda forma repelente de venalidade eclesiástica.

Dispensa é a isenção de uma lei da igreja ou de qualquer voto feito anteriormente. As mais comuns eram as isenções de jejum ou das leis matrimoniais da Igreja. Primos-irmãos poderiam casar-se, desde que pagassem a taxa de um ducado.

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2010.

____________
N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

Direitos reservados: os textos podem ser reproduzidos, desde que citados o autor e a obra. ( Código Penal, art. 184 ; Lei 9610/98, art. 5º, VII e Norma Técnica NBR 6023, da ABNT ).