Latim e Direito Constitucional

A literatura da Renascença espanhola apresenta tendência em comum com as da pintura. Isso é particularmente verdadeiro quanto ao teatro que, com frequência, assumia a forma de peças alegóricas que descreviam o mistério da transubstanciação ou apelam para alguma paixão de fervor religioso.

O mais alto representante dos dramaturgos espanhóis foi Lope Félix de Vega Carpio(1562-1635). Escreveu mais de 1.500 comédias e mais de 400 alegorias religosas.

Seus dramas seculares podem ser divididos em duas classes principais: a) as peças de “capa e espada”, que pintam intrigas violentas e exageram as ideias de honra das classes superiores e 2) as peças de grandeza nacional, que celebram as glórias da Espanha no seu auge e representam o rei como o protetor do povo contra uma nobreza viciosa e degenerada.  

Mas sem dúvida o mais bem dotado escritor da Renascença espanhola foiMiguel de Cervantes Saavedra(1547-1616). Sua obra-prima, Don Quijote de la Mancha foi dada como “incomparavelmente o melhor romance já escrito” ou la primera novela moderna y una de las mejores obras de la literatura universal.

Conta as peripécias de um fidalgo espanhol Don Quijote, que ficou meio desequilibrado em virtude da leitura constante de romances de cavalaria.

Com a sua mente cheia de todas as espécies de aventuras fantásticas, ele parte finalmente, aos 50 anos,  pela estrada incerta da vagabundagem cavaleirosa.

Imagina que moinhos de vento são gigantes enfurecidos e que rebanhos de ovelhas são exércitos de infiéis, cabendo-lhe o dever de desbaratá-los com a lança.

Em sua imaginação enferma, toma estalagens por castelos e as criadas que nelas servem por damas galantes perdidas de amor por ele.

Posta em contraste com o ridículo cavaleiro andante, há a figura do fiel escudeiro Sancho Panza, que representa o ideal do homem prático, com os pés na terra e satisfeito com os prazeres de comer, beber e dormir.

Todo o livro é uma sátira pungente da cavalaria e do feudalismo, em particular das pretensões dos nobres como campeões da honra e do direito.

Sua enorme popuralidade foi uma prova cabal de que a civilização medieval estava quase totalmente extinta, mesmo na Espanha.

Por outro lado, a Inglaterra, tal como a Espanha, gozou de uma idade áurea no século 16 e começos do 17. Colheu enormes lucros com a produção de lã e o comércio com o continente. Sob os Tudors (The House of Tudor) seu goveno consolidado estava incrementando a prosperidade dos comerciantes, pois as classes mercantis inglesas desfrutavam de excepcionais vantagens sobre suas rivais de outros países.

Para o florescimento de uma brilhante cultura na Inglaterra contribuíram também o desenvovimento de uma consciência nacional, o despertar do orgulho do poder estatal e a expansão do humanismo vindo da Itália, da França e dos Países Baixos. Não obstante isso, a Renascença inglesa limitou-se principalmente à literatura.

Os seus primeiros escritores interessaram-se acima de tudo pelos aspectos mais práticos do humanismo. Desejavam um cristianismo mais simples e mais racional e almejavam um sistema educativo liberto do domínio da lógica escolástica. Outros preocupavam-se com a liberdade individual e a correção dos abusos sociais.

Exemplo disso foi Sir Thomas More (1478-1535),  chanceler do Reino, julgado pelos humanistas de sua época como “superior a todo o seu povo”. 

Sua filosofia está contida em sua Utopia (De optimo reipublicae statu deque novainsula Utopia), em que bosquejou o plano de um estado fictício no gênero da República de Platão. É a descrição de uma sociedade ideal numa ilha imaginária; na realidade, uma denúncia dos teríveis abusos da época – a pobreza e a riqueza imerecidas, as punições drásticas, a perseguição religosa e a matança insensata da guerra.

Os habitantes de Utopia possuíam todos os seus bens em comum, trabalhavam somente seis horas por dia, para que tivessem tempo para atividades intelectuais e para a prática das virtudes naturais da sabedoria, moderação, fortaleza e justiça.

Com certeza os ideais de humanidade e de tolerância de More estavam consideravelmente além daqueles da grande maioria dos homens de sua época.

Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2010.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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