Latim e Direito Constitucional

Na arte, a Renascença alemã limitou-se à pintura e à gravura, representadas principalmente pelos trabalhos de Albrecht Dürer der Jüngere, (1471-1528) e Hans Holbein der Jüngere  (1497-1543).

De Dürer são A Adoração dos Magos (Anbetung der Könige), Os Quatro Apóstolos (Die vier Apostel) e O Cristo Crucificado (Christus der Gekreuzigte). Este último mostra o corpo de Jesus estendido sobre a cruz, tendo como fundo um céu negro e sinistro a intensificar o efeito sombrio da cena.
Sua Melancolia (Melancholiarepresenta uma figura de mulher, meditando sobre a natureza limitada da criatividade e do conhecimento humano.

Hans Holbein der Jüngere ficou célebre por seus retratos e desenhos. Os que fez de Erasmo e Henrique VIII da Inglaterra contam-se entre o mais famosos do mundo.

O seu Cristo na Sepultura (Der tote Christus im Grabe)  mostra o corpo de Jesus com os olhos soltados e a boca entreaberta, tão abandonado na morte quanto o cadáver de um criminoso comum. Seu propósito foi expressar a extrema degradação que Cristo havia sofrido pela redenção do homem.

No fim de sua vida fez muitos quadros religiosos, nos quais satirizava os abusos da Igreje Católica, a principal justificativa da revolução protestante. Dedicou seu talento a essa  causa.

Nos Países Baixos, a história da literatura e da filosofia renascentista começa e acaba com Desiderius Erasmus Roterodamus  (1467-1536), o príncipe dos humanistas.

Filho de um judeu e uma criada, nasceu perto de Rotterdam. Sua instrução primária foi na escola dos “Irmãos da Vida Comum“ (Broeders des Gemeenen Levens).

Mortos seus pais, seus tutores o colocaram num mosteiro. Aí gozou de bastante liberdade para ler o que quisesse. Assim devorou todos os clássicos. Aos 30 anos obteve permissão para deixar o mosteiro e matricular-se na Universidade de Paris, onde recebeu o grau de bacharel em teologia.

Pela leitura contínua dos clássicos, elaborou num latim elegante um estilo tão notável pela finura e delicdeeza, que tudo o que  escrevia era lido por um vasto público.

Erasmo admirava os clássicos, porque davam expressão aos próprios padrões de tolerância e humanitarismo, que ocupavam lugar alto em seu próprio espírito. Acreditava que pagãos como Cícero e Sócrates mereciam mais o título de santos do que muitos cristãos canonizados pelo papa.

No norte da Europa, Erasmo foi a encarnação dos mais altos ideais da Renascença. Convencido da bondade inata do homem, acreditava que toda a miséria e injustiça acabariam por desaparecer, se fosse permitido à pura luz da razão penetrar nas cavernas escuras da ignorância, da superstição e do ódio.

Grande parte de seus ensinamentos e escritos foi dedicada à causa da reforma religiosa. Chocavam-no o cerimonial e as extravagãncias supersticiosas da vida católica do século 16. Sem levantar uma cruzada contra eles, procurava expor o irracionalismo em todas as suas formas e propagar uma religião humanista de piedade simples e conduta nobre, baseada no que chamava de filosofia de Cristo (philosophia Christi).

Apesar de sua crítica à fé católica ter tido algum efeito, no sentido de apressar a revolução protestante, Erasmo deplorava a intoleância dos luteranos.

Não tinha grande simpatia pela revivescênccia científica de seu tempo. Como a maioria dos humanistas, acreditava que dar demasiada importância à ciencia significaria promover um grossseiro materialismo e afastar o interesse dos homens da influência nobilitante da literatura e da filosofia.

Suas obras mais conhecidas são Elogio da loucura -  Lof der zotheid - Stultitiae laus - (no qual satirizou o pedantismo e o dogmatismo dos teólogos, bem como a ignorância e a credibilidade das masas), Os Colóquios(Colloquia) e o Manual do Cavaleiro Cristão (Enchiridion militis Christiani). Neles condenou o cristianismo eclesiástico e se bateu pela volta aos ensimaamentos simples de Jesus, “que nada mais nos ordenou senão o amor ao próximo”.

Numa obra menos famosa, porém brilhante, intitulada A lamentação da paz (Die Klage des Friedens - Querela Pacis), Erasmo exprimiu seu horror à guerra e o desprezo pelos príncipes déspotas. 

Rio de Janeiro, 27 de dezembro de 2009.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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