Latim e Direito Constitucional

Após dois séculos de gloriosa história, a Renascença italiana chegou ao fim por volta de 1550. 

A invasão francesa em 1494 foi o a principal causa, sem deixar de mencionar o caos que se sucedeu rapidamente.

Para Carlos VIII (Charles VIII de France ou Charles VIII l'Affable  -- 1470-1498) a Itália parecia presa atrativa para suas ambições grandiosas. Por isso, atravessou os Alpes com um exército de 30.000 soldados bem treinados.

Ante sua aproximação, os Médicis fugiram, Florença (Firenze) foi logo capturada. Retomando o avanço, os franceses conquistaram Nápoles (Napoli).

Esse fato despertou as suspeitas dos soberanos espanhóis, que receavam um ataque contra a Sicilia (La Sicilia), sua própria possessão.

Uma aliança entre a Espanha, os Estados Pontifícios, o Sacro Império Romano, Milão (Milano) e Veneza (Venezia) forçou Carlos VIII a abandonar seu projeto.
Seu sucessor Luís XII (Louis XII, conhecido como le Père du peuple -- 1462-1515) repetiu a invasão da Itália. De 1499 a 1529 a guerra foi praticamente ininterrupta na península. Apesar da vitória francesa em Matignano (La battaglia di Marignano), em 1515, eles foram derrotados decisivamente pelos espanhóis em Paris, no ano de 1525. 

Em 1527 tropas descontroladas e indisciplinadas espanholas e alemãs saquearam Roma. Somente em 1529 Carlos V, que passou à posteridade como Charles Quint  --  1500-1558), conseguiu encerrar o conflito, deixando como príncipes alguns títeres espanhóis. Assim chegaram ao fim os grandes dias da Itália.

Aos desastres políticos somou-se o declínio da sua prosperidade. Com a descoberta da América, o deslocamento das rotas comerciais do Mediterrâneo para o Atlântico estava fadado a acabar exercendo seu efeito.

Aos poucos as cidades italianas perderam a supremacia como centros do comércio mundial. Prosperidade, que havia sido uma das principais influências vivificantes para a sua brilhante cultura. Assim é que se exauria uma grande fonte de sua força.

Causa final do declínio da Rnascença italiana foi a reforma católica.

No século 16, a Igreja católica procurou por todos os meios exercer firme controle sobre o pensamento e a arte como parte de uma campanha de combate ao mundanismo e à propagação do protestantismo.

Em 1542 foi criada a Inquisição (L'Inquisizione) romana. Em 1559, o papa Paulo IV (Paolo IV, de nascimento Giovanni Pietro Carafa  – 1476-1559) divulgou o primeiro Índice dos Livros Proibidos (Index Librorum Prohibitorum).

Os efeitos da interferência eclesiástica na vida artístitca foram devastadores.
O Juízo Final (Il Giudizio Universale), obra-prima de Michelangelo na Capela Sistina, ainda que inspirada pela filosofia da Reforma Católica, foi criticado por alguns fanáticos, ao afirmarem que lembrava um bordel, por mostrar um excesso de corpos nus. Por essa razão Paulo IV determinou a um artista de segundo plano que acrescentasse roupas às figuras, sempre que possível.

O mais notório exemploo da censura da Inquisição contra a livre especulação intelectual foi o disciiplinamento de Galileu (Galileo Galilei  – 1564-1642).
Em 1616 o Santo Ofício de Roma condenou a nova doutrina astronômica, segundo a qual a terra gira em torno do sol como “tola, obscena, filosoficamente falsa e formalmente herética” (che il Sole sia centro del mondo e imobile di moto locale, è proposizione assurda e falsa in filosofia, e formalmente eretica, per essere espressamente contraria alla Sacra Scrittura).

Quando em 1632 Galileu publicou brilhante defesa do sistema heliocêntrico, a Inquisição o fez retratar-se de seus “erros” e o condenou à prisão domiciliar pelo resto de seus dias.

Não se dispondo a arrostar a morte por suas convicções, mas após ter-ser retratado publicamente de sua afirmação de que terra gira em torno do sol, consta que ele teria murmurado “mesmo assim ela gira’ (eppur si muove).

Nessa época nasceu e floresceu em Roma, sob os auspícios da Igreja, o estilo barroco. Também músicos italianos fizeram avanços.

Só que nada que parecesse ameaçar a Igreja era tolerado. Não mais se vislumbrava o espírito livre da cultura renascentista. 

Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2009.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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