Latim e Direito Constitucional

Já em 1300 o movimento renascentista começou a desafiar certos pressupostos medievais básicos. Ao mesmo tempo, no século 16 iniciou na Alemanha a revolução protestante. Na esfera econômica, por volta de 1500, os europeus navegaram até continentes distantes. Do ponto de vista político, esse período inaugurou uma era de absolutismo encabeçado por reis que se identificavam com o Estado. Finalmente, entre 1600 e 1700 ocorreu o iluminismo, ou a exaltação da razão.

O termo Renascença, de modo geral, significa o renascimento das influências literárias e artísticas do tempo antigo. Esse movimento de ideias e pensamentos é caracterizado por um esmerado cultivo da forma e por uma admiração exageradamente entusiasta da antiguidade pagã

É reservado aos fatos novos ocorridos no pensamento, na literatura e nas artes adotados entre 1350 e 1600. Um desenvolvimento gradual e contínuo do saber clássico. Nessa época foram descobertas e popularizadas as obras de Tito Lívio (Titus Livius), Tácito (Publius Gaius Cornelius Tacitus) e Lucrécio (Titus Lucretius), assim como da literatura da Grécia clássica. Isso porque grande número de estudiosos do Ocidente aprendeu o grego e veio a dominar quase toda a literatura grega que hoje conhecemos.

Foi assim que um maior conhecimento dos clássicos contribuiu para progressos importantes nos domínios do pensamento, da literatura e da arte.

Outro fator elogiável foi o contínuo crescimento da sociedade urbana, que levou à evolução de uma sociedade que se comprazia em experimentar novas ideias e em criar meios expressivos cada vez mais requintados. Uma cultura cada vez mais secular.

A ascensão concomitante de centros seculares de saber, como academias e cortes fez com que entrassem em declínio as universidades dominadas no passado pelo clero.

Fato de excepcional valor foi a multiplicação de obras em vernáculo, em contraposição ao latim, a língua da Igreja. Isso não significa que obras meritórias ainda não fossem escritas em latim, pois o humanismo dependia em alto grau desse idioma.

O Renascimento não foi anticristão. Muitos dos maiores pensadores e artistas salientavam convicções cristãs em suas obras e a maioria dos demais tomava-as como coisas naturais. 

Acontece porém que, no decurso de dois séculos e meio, escritores e artistas diferiam em suas opiniões e perspectivas. Alguns continuavam a sustentar as tradições medievais de valorizar a esperança humana de salvação extraterrena e a precedência da alma sobre o corpo. Outros, no entanto, dedicavam uma atenção mais “moderna” à vida humana neste mundo. Isso mostra que parece verdadeiro que tenha havido um surto de otimismo, de meios expressivos naturalistas e de individualismo.

A palavra “humanismo” aplica-se às metas e aos ideais culturais de grande número de pensadores renascentistas

Em seu sentido técnico, era um programa de estudos que visava substituir a ênfase da escolástica medieval na lógica e na metafísica pelo estudo da linguagem, da literatura, da história e da ética.

Preferia-se sempre a literatura antiga: o estudo do latim clássico era o núcleo do currículo e, sempre que possível, o estudante deveria passar ao grego. Os mestres humanistas afirmavam que a lógica escolástica era demasiado árida e irrelevante para a vida prática. Preferiam, ao contrário, as “humanidades” destinadas a tornar seus alunos virtuosos e a prepará-los para melhor servirem às funções públicas do Estado.

As mulheres, como de hábito, eram em geral ignoradas. Mas, às vezes, moças da aristocracia recebiam educação humanista, a fim de que parecessem mais polidas. 

Na acepção mais lata do termo “humanismo” há uma ênfase na “dignidade do homem”, considerada a mais excelente de todas as criaturas de Deus, abaixo dos anjos.

Alguns pensadores de época julgavam que o homem era excelente porque somente ele, dentre as criaturas terrestres, era capaz de chegar ao conhecimento de Deus. Outros salientavam a capacidade do homem para dominar seu destino e viver com felicidade no mundo.

De um ou doutro modo, os humanistas da Renascença nutriam a firma convicção na nobreza e nas possibilidades da raça humana.

Rio de Janeiro, 05 de julho de 2009.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

 

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