Latim e Direito Constitucional

Nesse momento, um dos caminhos mais preferidos consistiu em cumprir repetidos atos de devoção externa, na esperança de que propiciassem ao devoto o favor divino na terra e a salvação depois da morte.

As pessoas ocorriam aos centros de peregrinação e participavam descalças de procissões religiosas. Homens e mulheres compravam indulgências, isto é, concessões papais, tidas como capazes de livrá-los do purgatório ou abreviar-lhes a estada ali e pagavam com antecedência por inúmeras missas de réquiem, destinadas a salvar-lhes a alma depois da morte.

A flagelação era a mais repugnante forma de ritual religioso. Açoitavam-se com chicotes de couro, correntes e relhos, na esperança de aplacarem a ira divina.
Caminho oposto para os piedosos era o misticismo, em que se buscava a união com Deus mediante a contemplação ou exercícios espirituais.

Eckhart von Hochheim, conhecido como Meister Eckhart (1260-1327) ensinava haver dentro de cada alma um poder ou “centelha“, que constituía a morada de Deus. Ele deixava claro que rituais externos tinham importância relativamene pequena na busca de Deus.

Acusado pelas autoridades eclesiásticas de incitar pessoas ignorantes e indisciplinadas a excessos absurdos e perigosos, alguns de seus ensinamentos foram condenados pelo papado.   

O fato é que alguns leigos caíram na heresia de acreditar que poderiam unir-se plenamente a Deus na terra sem qualquer intermediação sacerdotal. Os posteriores místicos ortodoxos acreditavam que as igrejas não santificam o homem, mas os homens é que santificam as igrejas.

No século seguinte disseminou-se entre os leigos uma forma modificada de misticismo prático, que visava uma contínua sensação de alguma presença divina durante a vida cotidiana.

Tornou-se popular o manual Imitação de Cristo (De imitatione Christi), em 1427, escrito provavelmente por Thomas a Kempis. Em estilo simples ensinava a pessoa a ser um cristão piedoso, mesmo que tivesse uma vida ativa no mundo. Instava os leitores a participarem da eucaristia, dedicar-se à meditação bíblica e levar uma vida simples e reta.

Outra forma de piedade foi o puro e simples protesto ou heresia. Na Inglaterra e na Boêmia, os movimentos heréticos tornaram-se sérias ameaças para a Igreja.
John Wycliffe (1330-1384) admitia que um certo número de homens estava predestinado à salvação, ao passo que os  demais se achavam condenados. Julgava que os predestinados deveriam viver com simplicidade. Como ele verificava que a maior parte dos membros da hierarrquia da Igreja se entregava à extravagância suntuária, concluía que os seus hierarcas se encontravam fadados à condenação.

Para ele a única saída seria os dirigentes seculares se apropriarem da riqueza da Igreja e a reformarem, substituindo os padres e bispos corruptos por homens que vivessem segundo as normas apostólicas.

Sua atitude interessava aos artistocratas ingleses que, de olho nos despojos da Igreja, usavam Wycliffe como mastim para assustar o papa e o clero local.

No fim da vida, mudou de posição, deixou de recomendar as reformas para atacar sobretudo o sacramento da eucaristia. Tal radicalismo amedrontou seus protetores influentes. Teria sido condenado por heresia, se tivesse vivido mais tempo. 

Reuniu em torno de si inúmeros seguidores leigos, os lollardos,  continuadores de Wiliam Taylor Lollard (12423), que contnuavam a propagar com fevor algumas de suas ideias mais radicais.

Os lollardos doutrinavam que os cristãos devotos deveriam deixar de lado a Igreja corrupta, estudar a bíblia e confiar tanto quanto possível em suas próprias consciências.

Depois da introdução da pena de morte por heresia na Inglaterrra, em 1399, a onde herética reduziu-se muito.

No entanto, alguns lollardos continuaram a sobreviver na clandestinidade. Seus descendentes contribuíram para a revolução protestante do século 16.

Rio de Janeiro, 07 de junho de 2009.

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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