Latim e Direito Constitucional

O Romance da Rosa (Roman de la Rose) representa uma ilustração do Tempos de fome. De mais ou menos 1300 até meados ou fins do século 15, calamidades de toda a sorte abateram-se sobre toda a Europa ocidental. 

Primeiro veio a fome com a agricultura prejudicada pela exaustão do solo, quedas de temperatura e chuvas torrenciais.

Depois veio a peste negra, horripilante, que ceifou populações inteiras em toda a Europa ocidental.

Como se não bastasse tudo isso, guerras incessantes impunham continuamente agruras e desolação. As pessoas comuns eram as que mais sofriam, vulneráveis a estupros, esfaqueamentos, saques e incêndios por parte do soldados e bandos organizados de pilhagem.

Nas ruínas fumegantes a devastação era tamanha que os lobos rondavam os campos e até entravam nas cercanias das cidades. A caveira embuçada simbolizaria esse período.

Apesar de tudo isso, os europeus demonstraram uma perseverança tenaz em face da adversidade, buscando ajustar-se às novas circunstâncias. Resultado disso foi a preservação e o desenvolvimento do que havia de mais sólido na herança deixada pela alta Idade Média.

Com a economia europeia em declínio, acelerado pelos efeitos destruidores das guerras, a primeira metade do século 14 foi uma época de crescente depressão econômica. Mas de 1300 a 1450 os europeus lograram dar à sua economia uma base mais sólida, quando o arrefecimento da doença e das guerras permitiu uma recuperação econômica lenta mas contínua. Nos fins do século 15 a Europa emergiu com uma economia mais saudável do que conhecera antes.

Apesar das guerras sangrentas e da fome, que dizimaram grandes parcelas da população, a Europa permaneceu superpovoada até meados do século 14. Como a população continuasse a se multiplicar enquanto declinava a produção de cereais, não havia alimentos para todos. Foi então que sobreveio um desastre tão horrendo que parecia ser uma presságio do fim dos tempos.

Apareceu então pela primeira vez entre 1347 a 1350 a peste negra (peste noirepeste nerablack deathschwarzer Tod), uma combinação de peste bubônica e de peste pneumônica. Ela voltou  em intervalos periódicos durante mais ou menos os 100 anos seguintes. Calamidade comparável, em termos de mortandade, desorganizações sociais e horror, às duas guerras mundiais do século 20.

Ela gerou grandes infortúnios para os sobreviventes. Pessoas em pânico desejavam evitar o contágio, muitos fugiam de suas ocupações em busca de isolamento. Assim é que as colheitas apodreciam, as manufaturas eram deixadas de lado e o sistema de transportes ficou abandonado. Os bens básicos tornavam-se cada vez mais escassos e os preços se elevavam. Isso intensificou em muito a crise econômica europeia.

Tendo a produção voltado aos poucos ao normal e havendo menos bocas para alimentar, em mais ou menos 1400 os preços começaram a declinar. Essa tendência levou a uma nova especialização agrícola. Com os cereais mais baratos, as pessoas podiam gastar uma maior proporção de sua renda em laticínios, carne e vinho. Daí uma produção especializada para a criação de gado leiteiro, uvas para a fabricação de vinho ou de malte para a produção de cerveja.

Economias regionais resultaram daí e foram a sua consequência: partes da Inglaterra dedicaram-se à pecuária ou ao fabrico de cerveja, partes da França concentraram-se na vitivinicultura e a Suécia trocava manteiga pelos baratos cereais alemães. Foi assim que o comércio de produtos básicos, através de longas distâncias, criou um novo e sólido equilíbrio econômico. 

Outro efeito da peste negra foi um aumento na importância relativa das cidades e vilas. Os produtores urbanos podiam em geral reagir com mais facilidade do que os proprietários rurais à modificação das condições econômicas, pois a sua capacidade produtiva era mais elástica. O equilíbrio populacional entre o campo e cidade mudou um pouco em favor desta.

Os centro urbanos do norte da Alemanha e da Itália aproveitaram ao máximo as novas circunstâncias. Na Alemanha um grupo de cidades e vilas, sob a liderança de Lübeck e Bremen, formaram a chamada Liga Hanseática(die Hanse), a fim de controlar o comércio a longa distância no mar Báltico e no mar do Norte. Suas frotas transportavam grãos para a Escandinávia e traziam de volta laticínios, peixe e pelos. Isso contribuiu para o enriquecimento de cidades do norte da Itália como Gênova e Veneza, que dominavam a importação de especiarias do Oriente. Florença, Milão e outras cidades concentravam-se na manufatura de sedas e linhos, lãs leves e roupas finas.

Os centros urbanos europeus lucraram muito com as novas circunstâncias econômicas e com a especialização.

Rio de Janeiro, 10 de maio de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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