Latim e Direito Constitucional

A literatura na alta Idade Média foi muito variada, vivida e expressiva.

Os melhores exemplos foram poemas lírios profanos compostos por um grupo de poetas conhecidos como goliardos. Turbulentos, eles escreviam paródias da liturgia e punham em ridículo os evangelhos.

Celebravam as belezas das estações do ano, a vida despreocupada dos errantes, os prazeres da bebida, dos divertimentos e das alegrias do amor.

Além do latim, o francês, o alemão, o espanhol e o italiano ganharam cada vez mais popularidade como meio de expressão literária. Épicos heroicos foram escritos, tais como a Canção de Rolando (La Chanson de Roland), francesa, edas e sagas escandinvos, a Canção dos Nibelungos (Das Nibelungenlied), alemã e o poema do Cid (El Cantar de mio Cid), espanhol.

Tais épicos retratavam uma sociedade guerreira, viril e sem polimento. O sangue corria à larga, crânios eram rachados ao meio. O heroísmo em batalha, a honra e a lealdade eram os temais mais variados.

Os tovadores introduziram na França uma enorme mudança tanto temática como estilística. Eram poetas cortesãos que escreviam num dialeto francês, o provençal. Lançaram um movimento de profunda repercussão em toda a literatura ocidental subsequente.

Com estilo requintado, seus poemas eloquentes deveriam ser cantados com música, o que deu origem ao tema do amor romântico. Idealizavam as mulheres como seres maravilhosos, capazes de conceder intensa gratificação espiritual e sensual. Temendo que esse amor perdesse a magia se fosse gratificado com demasiada facilidade ou frequëncia, eles escreviam mais sobre saudades do que sobre realização amorosa.

Além de poemas de amor, alguns eram obscenos. Outram tratam de feitos de armas, comentam fatos políticos contemporâneos e meditam a respeito de assuntos religiosos.

Outra inovação faz a composição de poemas narrativos conhecidos como romances, cujos temas eram o amor e a aventuras. Os mais famosos e melhores foram o do ciclo arturiano, que se reportavam às façanhas legendárias do rei Artur (King Arthur), herói celta, e de seus muitos cavaleiros.

Chrétien de Troyes (1135-1190) em muito contribuiu para criar e plasmar a nova forma literária com  inovações no tocante a temas e atitudes. Enquanto os trovadores exaltavam o amor extraconjugal não correspondido, Chrétien expunha o  ideal do amor romântico dentro do casamento.

Sua obra foi continuada, uma geração depois, por Wolfram von Eschenbach (1160-1220) e Gottfried von Strassburg (+1215), tidos como os melhores escritores em língua alemã.

O Parsifal (Parzifal), de Wolfram, era uma história de amor e da procura do Santo Graal, onde se pode ver um pleno desenvolvimento psicológico do herói.

O Tristão (Tristan), de Gottfried, é obra mais melancólica e narra o desesperançado amor adúltero de Tristão e Isolda. Protótipo de moderno romantismo trágico. Para ele, amor é ânsia, sofrimento e gratificação insatisfeita dos capítulos íntegros do livro da vida.

Tanto o Parzifal como o Tristan são  mais conhecidos hoje pelas concepções operísticas do compositor alemão Richard Wagner (1813-1883).

Mas nem todas as narrativas da alta Idade Média eram tão nobres quanto os romances. As fábulas em verso (fabliaux) se derivavam das histórias moralistas de Esopo. Destinavam-se mais a divertir do que edificar e instruir. Eram às vezes rudes e tinham forte conteúdo anticlerical, fazendo de monges e padres objetos de escárnio.

Hoje resta pouca dúvida de que se dirigiam à aristocracia refinada, que também queria rir. Expressão de crescente mundanismo e primeiras manifestações de intenso realismo, mais tarde aprimorado por Giovanni Boccaccio (1313-1375) e Geoffrey Chaucer (1343-1400).
 
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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