Latim e Direito Constitucional

Com a obra Sic et Non (Sim e Não), Abelardo desejava dar início a um processo de estudo cuidadoso, mediante o qual se pudesse demonstrar que a autoridade suprema da bíblia era infalível e que as mais abalizadas autoridades concordavam entre si.

Ele propôs que a teologia fosse tratada como uma ciência, tendo sido um dos primeiros a tentar harmonizar a religião com o racionalismo. Foi o arauto da perspectiva escolástica.

Seu aluno Pedro Lombardo (Pietro ou Pier Lombardo – 1100-1160) compôs Liber Sententiarum (Libro delle Sentenze), em que levantou as mais fundamentais questões teológicas em ordem sequencial rigorosa, aduzia respostas da bíblia e de autoridades cristãs para ambos os lados de cada questão, propondo um julgamento para cada caso.

Esse livro tornou-se uma obra de referência para todos os aspirantes ao doutorado. Assim nasceu o método escolastico.

Em 1140 houve a recuperação da filosofia clássica, apesar de poucas obras gregas terem sido traduzidas. Em 1250 a autoridade de Aristóteles era tamanha que ele passou a ser chamado pura e simplesmente de o “Filósofo”.

Os escolásticos de meados do século 13 adotaram a metodologia de Pedro Lombardo, mas acrescentaram a consideração de autoridades filosóficas gregas e árabes à de teólogos puramente cristãos. Ao agir assim, tentaram construir um sistema para compreensão de todo o universo que conciliasse os reinos antes separados da fé e do conhecimento natural.

Tomás de Aquino (Tommaso d'Aquino - 1221-1274), o mais eminente teólogo escolástico da Universidade de Paris, estava comprometido com o princípio de que a fé poderia ser defendida pela razão, ao compatibilizar a filosofia grega com a teologia cristã.

Nas suas obras Summa contra Gentiles e Summa Theologiae esperava infundir respeito pela ordem rigorosa e pela argúcia intelectual.

Fora as doutrinas da trindade e da encarnação, ele submete todas as questões teológicas à inquisição filosófica, assim como o aristotelismo aos princípios cristãos básicos, criando assim o seu próprio sistema filosófico e teológico, ao atribuir mais valor à razão humana, à vida nesse mundo e às aptidões do homem para participar de sua própria salvação.

Com as contribuições tomistas, em meados do século 13, o pensamento medieval do Ocidente chegou ao seu pináculo. A França gozava seu mais fecundo período de paz e prosperidade sob o governo de Luís IX (Louis IX de France). A Universidade de Paris estava definindo suas formas organizacionais básicas. Nessa época se construíram as maiores catedrais góticas francesas.

Fato interessante é que os maiores pensadores da alta Idade Média mostraram espantosa receptividade às novas ideias, não permitiam que se lançassem dúvidas sobre os princípios de sua fé, mas aceitavam de bom grado tudo quanto fosse possível receber dos gregos e árabes. Isso era uma revolução filosófica.

Esses pensadoes escolásticos não eram constrangidos pela autoridade. Tomás de Aquino não considerava que a autoridade de textos - exceto a revelação bíblica referente aos mistérios da fé - bastasse para encerrar uma discussão.

 As autoridades eram citadas para delinear as possibilidades, mas a seguir a razão e a experiência demonstravam a verdade.

Eles não eram anti-humanistas. Inquestionavelmente davam primazia à alma em relação ao corpo e à salvação extraterrrestre sobre a vida aqui e agora.

No entanto exaltavam também a dignidade da natureza humana, pois a encaravam como uma gloriosa criação divina e acreditavam na possibilidade de uma aliança útil entre eles próprios e Deus. Tinham uma fé extraordinária nos poderes da razão humana.
 
Rio de Janeiro, 19 de abril de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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