Latim e Direito Constitucional

A instituição da universidade foi uma invenção medieval. Inicialmente eram corporações de professores e de estudantes, a fim de proteger seus interesses e direitos. Aos poucos o termo passou a designar um estabelecimento de ensino com uma escola de artes liberais e um ou mais institutos nas áreas de direito, medicina ou teologia.  

Durante o século 13 foram fundadas ou reconhecidas formalmente organizações famosas como as universidades de Oxford, Cambridge, Montpellier, Salamanca, Nápoles e Heidelberg.

Na Itália, na Espanha, no sul da França o padrão era a universidade de Bolonha, onde os próprios estudantes constituíam a corporação. Eles contratavam os professores, pagavam-lhe os salários e multavam-nos ou os demitiam por deslizes no cumprimento de dever ou incompetência.

As da Espanha setentrional seguiam a de Paris, que era uma guilda de professores com 4 instituições  - artes, teologia, direito e medicina, dirigidos por um deão.

O nosso sistema universitário deriva-se do medieval com grandes alterações. O estudante medieval deveria conhecer a gramática latina com perfeição. Admitido, passava 4 anos estudando as artes liberais, como retórica e lógica. Para ser um profissional, era necessário obter o grau de mestre ou doutor, o que era bastante árduo em fins da Idade Média,

No século 13, a universidade de Paris tinha cerca de 7.000 alunos e Oxford uns 2.000. Isso significa que proporção grande de europeus do sexo masculino, que fossem mais do que artífices ou camponeses, recebia alguma educação de nível superior.

Nesse momento houve uma melhora na qualidade do ensino, principalmente na recuperação da cultura grega e na absorção dos avanços intelectuais feitos pelos muçulmanos.  

Raríssimos eram os europeus que conheciam o grego ou o árabe. Assim uma intensa atividade de tradução colocou quase todo o conhecimento científico grego e árabe à sua disposição. Esse trabalho foi grande na Espanha e na Sicília, onde havia pessoas conhecedoras dessas línguas.

Por volta de 1260 quase todo o conjunto de obras de Aristóteles, que se conhece hoje, achava-se traduzido para o latim. O mesmo aconteceu com as obras básicas de Euclides, Galeno e Ptolomeu, além dos filósofos e cientistas islâmicos como Ibi-Sina (Avicena) e  Ibn Roschd (Averroes).

Com esse conhecimento, o Ocidente realizou o seu próprio progresso. No campo da ciência natural não havia conflitos com os princípios do cristianismo. Mas no campo da filosofia havia a dúvida se o pensamento grego e árabe era compatível com a fé cristã.

Robert Grosseteste (1175-1253) foi o mais destacado cientista do século 13. Além de traduzir toda a Ética de Aristóteles, realizou importantes avanços teóricos na matemática, na astronomia e na ótica.

Roger Bacon (1214-1294) previu os automóveis e as máquinas de voar. Junto com seu mestre Grosseteste argumentava que a ciência natural seria mais correta quando baseada em manifestações sensoriais do que quando repousasse na razão abstrata.

Os dois podem ser considerados precursores da ciência moderna. Nessa época, na história do encontro entre a filosofia grega e a fé cristã, é que surgiu a escolástica.

Basicamente era o método de ensino e aprendizado das escolas medievais. Mais do que isso, era uma visão do mundo, pois ensinava haver uma compatibilidade entre o conhecimento obtido naturalmente e os transmitidos pela revelação divina. Ou seja, foi em consequência, a teoria e a prática da conciliação da filosofia clássica com a fé cristã.

Pedro Abelardo (Pierre Abélard, Pierre Abailard ou ainda Pierre Abeilard - 1079-1142) havia preparado o caminho para a escolástica. Impetuoso, era versado tanto em lógica como em teologia. Sua conduta arrogante granjeou muitos inimigos. Sua carta A história das minhas calaminades (Historia calamitatum -  L'Histoire des mes Malheurs) foi um dos primeiros relatos autobiográficos escritos no Ocidente desde as Confissões (Confessiones) de Agostinho.

Na sua obra teve a intençãode fazer um comentário moralizante, narrando como tinha sido punido por sua soberba intelectual. Ele representa um despertar do interesse pela introspeção pessoal. Foi sem dúvida o primeiro ocidental que procurou transformar a vida intelectual numa profissão.

Rio de Janeiro, 24 de maio de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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