Latim e Direito Constitucional

A primeira cruzada foi coroada de êxito por causa do entusiasmo com que os ocidentais passaram a encarar a religião.

O movimento de reforma do século 11 e o pontificado de Gregório VII despertaram o interesse pela religião em todos os setores da sociedade. Razão de uma extraordinária vitalidade religiosa em todo o período da alta Idade Média.

O primeiro motivo foi a o sucesso da campanha para purificar a Igreja, o que levou um número cada vez maior de pessoas a abraçaram a vida religiosa e a ingressarem em ordens monásticas.

Outro incentivo foi ter o papa exortado o laicato a ajudar a disciplinar os padres e a expulsá-los dos púlpitos ou boicotar seus ofícios.

Esse patrulhamento por toda a Europa aumentou a curiosidade pelos assuntos da Igreja. Depois do período gregoriano, o cristianismo começou a tornar-se um ideal e uma prática que orientava a vida dos homens.

O movimento cisterciense foi uma das manifestações da nova religiosidade, no século 12.

Por volta de 1100, os monges ligados a Cluny (L’Abbaye de Cluny) começaram a mergulhar no lodaçal do mundanismo e corrupção. Consequência disso foi a fundação de novas ordens que proporcionavam a mais plena expressão do idealismo monástico. Na dos cartuxos (L'ordre des Chartreux), por exemplo, os membos habitvam selas separadas, viviam de pão, água e sal.

Ao contrários deles, que não se expandiram muito, os cistercienses (L’ordre cistercien, Ordo cisterciensis) parocuraram seguir a ordem beneditina da maneira mais austera possível. Para evitar as tentações mundadas a que os monges de Cluny haviam sucumbido, fundavam novos mosteiros nas florestas e regiões ermas.

Abandonaram as liturgias complicadas em favor de uma contemplação e orações privadas, além de se empenharem seriamente em pesados trabalhos manuais. Sob a liderança de Bernardo de Claraval (Bernard de Clairvaux - 1090-1153), a ordem cresceu exponensialmente.

Tal crescimento significou que não só um número maior de homens se tornou monge mas também que muitos leigos piedosos doavam fundos e terras para a manutenção dos novos conventos.

Igualmente, a própria natureza da devoção e da crença religosas estava modificando. Houve um certo abandono do culto dos santos e a ênfase na adoração de Jesus e na veneração da Virgem Maria.

Os mosteiros beneditinos mais antigos estimularam o culto das relíquias de santos locais, conservados a fim de atrair peregrinos e doações. Mas as ordens cluniacense e cisterciense eram organizações centralizadas, que só permitiam um único padroeiro para todas as casas: Pedro (para homeneagear o fundador do papado) e a Virgem Maria, respectivamente.

Tal culto foi  substituído por  uma concentração na eucaristia ou o sacramento da ceia do Senhor. Foi nessa época, século 12, que os teólogos elaboraram a doutrina da transubstanciação, em que o pão e o vinho se convertem no corpo e no sangue de Cristo. Por causa disso, houve um intenso sentido de identificação com Cristo, ao procurar imitar sua vida de muitas maneiras.

Essa renovada adoração de Cristo no século 12 foi acompanhada pela veneração da Virgem Maria, o que floresceu em toda a Europa ocidental. Todas as catedrais construídas na época lhe foram dedicadas como Notre Dame de Paris, de Chartres, Reims, Amiens, Rouen, Laon e muitas outras cidades.

Sob o ponto de vista teológico, Maria era a intercessora junto a Seu Filho para a salvação das almas humanas. Significado múltiplo do novo culto, pois pela primeira vez era dado a uma mulher lugar tão exaltado na religião cristã.

Para os doutores, o pecado havia entrado no mundo através da mulher Eva. Agora, contrabalançam isso com a explicação de que o triundo sobre o pecado sobreviera com a ajuda de Maria (Gn 3, 15-16 ; Jo 19, 25+).

A ênfase na Virgem deu às mulheres uma figura religiosa com a qual se poderiam identificar, o que lhes realçava a prática religiosa. Além disso, os artistas e escritores que representavam Maria puderam concentrar-se na feminilidade e em cenas de carinho humano e vida familiar.

Talvez o mais importante da ascensão do culto de Maria esteja ligado a um aumento geral da esperança e do otimismo no Ocidente do século 12.

Rio de Janeiro, 26 de abril de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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