Latim e Direito Constitucional

A vitória da primeira cruzada havia realçado em muito o prestígio e a força da monarquia papal, mas os fracassos ulteriores puseram em questão, cada vez mais, a capacidade papal de unificar o Ocidente para um grande empreendimento.

Inocêncio III (Innocenzo III) lançou, em 1208, a cruzada albigense. Ela estabeleceu o precedente de que um fiel poderia receber as mesmas recompensas espirituais, ao participar de uma cuzada dentro da Europa, do que se aventurar numa  outra muito distante e arriscada, no Oriente.  

Essa cruzada não prejudicou a imagem religiosa do papado. Mas, assim que o papado lançou sua cruzada contra Frederico II (Friedrich II) e seus herdeiros, sacrificou inteiramente o ideal cruzadista a interesses políticos.

Inter-reladionaram-se de perto tanto o declínio do movimento cruzadista como a decadência do papado. Nas cruzadas contra Frederico II e seus sucessores e mais tarde contra o rei de Aragão (Aragón), os papas ofereciam  a mesma indulgência plenária oferecida a todos os cruzados contra o islã.

Em 1291 os últimos postos avançados cristãos haviam caído sem qualquer ajuda ocidental, enquanto ainda se tentava salvar sua derrocada cruzada contra Aragão.

O jubileu papal de Bonifácio VIII (Bonifacio VIII, Benedetto Caetani) em 1300, que ofereceu uma indulgência plena a todos quantos realizassem uma peregrinação a Roma, constituiu um reconhecimento tácito de que doravante a Cidade Eterna, e não a Terra Santa, teria de ser a meta central da peregrinação cristã.

Três anos depois Bonifácio caiu do poder. O prestígio do papado havia sido danificado pelos abusos e facassos do movimento cruzadista, o qual ajudou a edificar e também a destruir a monarquia papal.

Que sentido prático tiveram as cruzadas?

O sucesso quase inacreditável da peimeira cruzada ajudou a elevar a autoconfiança do Ocidente medieval. Durante séculos a Europa estivera na defensiva contra o islã. Agora um exército ocidental conseguiu investir contra um centro do poder islâmico e tomar um tesouro, aparentemente a seu bel-prazer.

Essa vitória tornou o século 12 uma época de extraordinário otimismo. Era como se Deus estivesse a seu lado, permitindo aos cristãos ocidentais fazerem quase tudo o que desejassem.

Os horizontes ocidentais se alargaram. Poucos ocidentais na Terra Santa jamais se deram o trabalho de aprender o árabe ou tirar proveito de instituições ou ideias islâmicas específicas. Agora, por percorrerem grandes distâncias em terras estrangeiras, não podiam deixar de adquirir uma nova visão das coisas.

As cruzadas despertaram interesse por artigos santuários até então desconhecidos e trouxeram temas abundantes para a literatura e as fábulas.

Do ponto de vista econômico, o sucesso da primeira cruzada ajudou a abrir o Mediterrâneo oriental ao comércio do Ocidente.
As cidades italianas de Veneza (Venezia) e Gênova (Genova) começaram a dominar as atividades mercantis daquela área, ajudando assim a promover a prosperidade ocidental como um todo.

A necessidade de transferir dinheiro a longas distâncias estimulou também experiências em técnicas bancárias.

Politicamente, o precedetnte de tributar o clero para custear as cruzadas não só foi aproveitado rapidamente pelas monarquias ocidentais, como também estimulou várias formas de tributação nacional.

O simples ato de se organizar um país para ajudar a financiar uma cruzada real, levantando-se fundos e suprimentos, representou estímulo importante para o desenvolvimento de instituições administrativas eficientes nas incipientes nações-estados.

O saldo negativo foi a feroz mortandade das cruzadas, que trucidaram judeus na Europa e muçulmanos no Oriente. Aceleraram a determinação das relações do Ocidente com o império bizantino, contibuindo para a sua destruição.

Rio de Janeiro, 19 de abril de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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