Latim e Direito Constitucional

Foi religioso o motivo que gerou a primeira cruzada. Por cálculo racional, seria uma viagem de volta sem remuneração ou a morte nas mãos dos muçulmanos.

A peregrinação era o tipo mais popular de penitência e a feita a Jerusalém era a mais sagrada e eficaz de todas, a fim de retomar o mais santo de todos os lugares sagrados do cristianismo.

Para tornar essa questão explícita, Urbano II (Urbain II) prometeu que os cruzados ficariam isentos de todas as demais penas impostas pela Igreja. Logo depois, alguns pregadores que a integraram foram além, prometando, sem autorizados do papa, o que veio a ser conhecido como indulgência plenária.

Era a promessa de que todos os cruzados ficariam inteiramente livre de punições no purgatório e que suas almas iriam diretamente para o céu, se morressem em combate.

Oferta extraordinária, as multidões apressaram-se a tirar proveito dela. Eram levados pelos organizadores a um frenesi religioso que raiava pela histeria coletiva. Convencidos de que tinham sido escolhidos para purgar o mundo dos ímpios, antes de partirem para o Oriente, já começaram a trucidar judeus europeus. Primeira eclosão do antissemitismo no Ocidente.

Com sucesso absoluto, os cruzados capturaram Antioquia, a maior parte da Síria e, em 1099, Jerusalém. Os muçulmanos enfrentavam divisões internas e a chegada dos ocidentais pegou-os de surpresa.

Ao conquistarem os novos territórios, eles reivindicavam-nos como uma propriedade pessoal, dividindo suas aquisições em quatro principados diferentes.

Além disso, ferozes, ao subjugar Antioquia e Jerusalém, mataram todos os turcos e os habitantes muçulmanos da cidade, deixando de lado os preceitos pacíficos de Cristo.

Permanecendo na Terra Santa, aos poucos se tornaram mais civilizados e tolerantes, mas as novas levas de peregrinos armados, chegados do Ocidente, continuavam a agir brutalmente.

O pior é que os cruzados que ficaram não se integraram plenamente à população local, permanecedo um elemento estrangeiro, separado e explorador, no coração do mundo islâmico.  

Os Estados cristãos compreendiam apenas uma estreita faixa de colônias subpovoadas na costa da Síria e da Palestina, retomada fácil para o islã.

O principado setentrional caiu em 1144. Quando os guerreiros cristãos conduzidos pelo rei da França e pelo imperador da Alemanha chegaram ao Oriente, na segunda cruzada, a fim de reaver os territórios perdidos, estavam demasiado divididos para conseguir vitórias.

Mais uma vez, forças ocidentais tentaram reparar as perdas. Essa foi a terceira cruzada dirigida pelo imperador germânico Frederico Barba-roxa (Barbarossa = barba ruiva), pelo rei francês Filipe Augusto (Philippe Auguste) e pelo rei inglês Ricardo Coração de Leão (Richard the Lionheart, ou Cœur de Lion). Mas nem essa gloriosa expedição conseguiu triunfar, porque os líderes rivais novamente litigavam entre si.

A maior ambição de Inocêncio III (Innocenzo III) consistia em retomar Jerusalém. Organizou a quarta cruzada. Desastre sem precedentes do ponto de vista de uma cristandade unida. Em 1204 os cruzados tomaram Constantinopla, cidade cristã ortodoxa, em vez de marcharem sobre a Terra Santa.

Consequência fatal dessa aventura foi a destruição do império bizantino e a abertura de uma brecha preciosa na Europa oriental para os turcos otomanos.

O quarto Concílio de Latrão, em 1215, foi organizado para preparar a quinta cruzada. Lnnçada do mar contra o Egito, a fim de penetrar no centro do poder muçulmano, teve inicialmente um sucesso promissor mas infelizmente também fracassou.

Somente a sexta cruzada, conduzida em 1228 a 1229 pelo imperador Frederico II (Friedrich II), alcançou êxito, não por motivos militares. Falando árabe, preferiu negociar habilmente um tratado pelo qual Jerusalém e uma estreita rota de acesso fossem restauradas aos cristãos. Triunfou a diplomacia onde a guerra fracassara.

Os cristãos não conseguiram manter suas aquisições e Jerusalém caiu mais uma vez em 1244, não sendo mais recapturada pelo Ocidente antes de 1917. Os Estados cristãos reduziram-se agora a um pequeno encrave ao redor da cidade palestina de Acre (Ako).

Rio de Janeiro, 12 de abril de 2009.


____________
N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

Direitos reservados: os textos podem ser reproduzidos, desde que citados o autor e a obra. ( Código Penal, art. 184 ; Lei 9610/98, art. 5º, VII e Norma Técnica NBR 6023, da ABNT ).