Latim e Direito Constitucional

A primeira cruzada e o seu sucesso representaram uma grande vitória inicial para a monarquia papal.

A sua causa imediata foi um pedido de ajuda, em 1095, do imperador bizantino Aleixo I Comneno, que tinha esperança de reconquistar territórios bizantinos na Ásia Menor, perdidos pouco antes para os turcos.  

Acostumado a usar mercenários ocidentais como tropas auxiliares, pediu ao papa que ajudasse a reunir algum apoio militar no Ocidente. Para sua surpresa, recebeu um enorme exército de voluntários, cuja meta era arrancar Jerusalém das mãos do islã.

Urbano II (Urbain II - 1042-1099) era o papa da época. Homem de extrema competência, convocou a primeira cruzada, a fim de ajudar a promover as políticas do papado gegoriano.

Gregório VII e os papas por ele influenciados abençoaram campanhas cristãs contra muçulmanos na Espanha, contra gregos na Itália e contra eslavos no leste da Alemanha. Essas campanhas foram consideradas medidas no sentido de impor a  ”ordem correta no mundo” .

Urbano II concebeu uma grande cruzada à Terra Santa, como meio de atingir pelo menos quatro objetivos.

O primeiro seria trazer a Igreja Ortodoxa grega de volta ao redil. Com um poderoso exército de voluntários ao Oriente, Urbano poderia talvez espantar os bizantinos com a força ocidental e convencê-los a aceitar o primado de Roma. Em caso de lograr êxito, alcançaria importante vitória para o pragrama  gregoriano de monarqua papal.

O segundo seria causar embaraço ao maior inimigo do papa, o imperador alemão. Em 1095, Henrique IV (Heinrich IV) havia adquirido tamanha força militar que Urbano fora obrigado a fugir da Itália e refugiar-se na França. Ao organizar uma cruzada poderosa contra os sarracenos, congregando todos os ocidentais, menos os alemães, Urbano esperava apontar o imperador como um perseguidor, de espírito estreito e anticristão e, ao mesmo tempo, demonstrar sua própria capacidade para ser o líder espiritual do Ocidente.

Em terceiro lugar, ao despachar para longe um grande contingente de combatentes, Urbano talvez ajudasse a alcançar a paz na Europa.

No passado, a Igreja francesa havia apoiado um movimento de paz, que proibia ataques a não-combatemtes (a Paz de Deus – la Paix de Dieu) e depois proibiu lutas em certos dias santos (a Trégua de Deus -  la Trêve de Dieu)

Urbano promulgou a primeira aprovação e ampliação papal plenas desse movimento de paz. Assim a cruzada estava claramente ligada ao apelo em prol da paz.

Finalmente, talvez tenha sido inspirado o objetivo de capturar Jerusalém, que era considerado como o centro do mundo e representava o santuário mais sagrado da religião cristã. Ao papado deve ter parecido direito que as peregrinações a Jerusalém não fossem obstadas e que os cristãos deveriam governar a cidade diretamente.

Quando Urbano II convocou sua cruzada, num concílio da Igreja, na cidade francesa de Clermont, em 1095, a reação foi entusiástica. O discurso do papa foi interrompido com brados espontâneos de “Deus o quer” (Dieu le veut!) e muitos partiram impetuosamente para o Oriente logo depois.

Por que o apelo de Urbano teve tanto sucesso? Muitas das pessoas pobres que, em 1095, se lançaram à cruzada provinham de regiões que já apresentavam população excesiva. Talvez até alimentassem a esperança de ter melhor sorte no Oriente do que em suas terras saturadas.

Além do mais, pela primogenitura, o direito de herança se limitava ao filho mais velho, do sexo masculino. Assim, os filhos mais jovens  poderiam aspirar a fazer suas próprias fortunas nas guerras endémicas ou ao menos herdar algum território. Partir para o Oriente era uma alternativa mais interessante que vegetar em sua própria terra.

Rio de Janeiro, 05 de abril de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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