Latim e Direito Constitucional

A revivescência do comércio e o florescimento das cidades foram dois aspectos que não podem ser separados da evolução agrícola, da manumissão dos servos e da crescente melhoria da vida dos nobres.

No comércio cotidiano feito em feiras locais, os servos ou camponeses livres vendiam seus excedentes de grãos ou talvez algumas dúzias de ovos.

Com a especialização crescente, produtos como vinhos ou algodão eram às vezes levados a grandes distâncias. Rotas fluviais e marítimas eram usadas sempre que possível, mas o transporte por terra era também necessário e veio a ser fomentado pelo aperfeiçoamento na construção de estradas, pela adoção de cavalos e mulas de carga e pela construção de pontes.

As populações medievais, a partir do século 11, concentraram-se no transporte terrestre. Começaram a transformar o antigo “lago” romano (lacus romanus) numa via de extenso comércio marítimo.

Entre 1050 e 1300, as cidades-estados italianas de Gênova, Pisa e Veneza libertaram grande parte do Mediterrâneo do controle muçulmano, deram início ao monopólio do comércio em águas antes dominadas pelos bizantinos e começaram a estabelecer, em entrepostos do Mediterrâneo oriental, um florescente comércio.

Artigos antes suntuários, como especiarias, pedras preciosas, perfumes e tecidos finos, começaram a aparecer em mercados ocidentais e estimularam a vida econômica, ao levarem os nobres a acelerar a revolução agrícola, a fim de pagá-los.

Um dos resultados mais importantes foi que a Europa ocidental voltou a uma economia monetária. As moedas metálicas tornaram-se indispensáveis. A princípio representaram valores ínfimos, mas, com o crescimento do comércio de luxo no Ocidente, os valores cresceram rapidamente. Estados italianos como Florença e Veneza emitiam moedas de ouro.

Os mercadores itinerantes, mascates, aos poucos acharam melhor exibir e vender seus produtos em feiras internacionais de comércio. Em Champagne eram expostos e vendidos tecidos de Flandres e especiarias trazidas do Oriente pelos italianos.

Em 1300 tais feiras entraram em declínio, porque mercadores prósperos já enviavam frotas inteiras da Itália ao Atlântico e preferiam ficar eles próprios em casa.

Esses empresários foram os primeiros capitalistas mercantis do Ocidente, pois, ao investir no comércio com a intenção de lucro, criaram e utilizaram complexos mecanismos de crédito.

Em virtude da expansão da moeda e do crédito, o comércio foi enormemente incrementado pelo rápido crescimento das cidades. Muitos aglomerados urbanos surgiram do nada. As cidades que haviam sobrevivido ao período romano expandiram-  -se enormemente.

Na Alemanha central e oriental fundaram-se cidades novas, como Friburgo em Brisgóvia (Freiburg im Breisgau), Lübeck, Munique (München) e Berlim (Berlin). Mais a oeste, cidades antes insignificantes, como Paris, Colônia e Londres, duplicaram de tamanho entre 1100 e 1200.

A vida urbana concentrava-se sobretudo na Itália, onde se encontrava a maioria das grandes cidades europeias: Veneza, Gênova, Milão, Bolonha, Palermo, Florença e Nápoles.

No século 12, a população das maiores delas – Veneza, Gênova e Milão – orçava pelas 100.000 almas; trata-se, assim, de uma revolução urbana na alta Idade Média. A partir desse período e até hoje, uma vigorosa vida urbana tem sido característica notável da civilização europeia ocidental e, subsequentemente, da mundial moderna.

Muitas cidades receberam estímulo do comércio a longa distância. Os mascates itinerantes, que não dispunham de um lugar seguro na sociedade predominantemente agrária da Europa, aos poucos se juntaram em cidades, a fim de prestar uns aos outros uma proteção de extrema necessidade e criar mercados para a venda de seus produtos.

O crescimento de uma grande cidade como Veneza decorreu muito mais da riqueza das áreas circundantes, que lhe levavam produtos agrícolas excedentes, matérias-primas para manufatura e um influxo populacional.

Foi assim que Paris e Bolonha adquiriram riquezas copiosas ao se tornarem sedes de importantes universidades. Veneza, Gênova, Colônia e Londres fizeram-se centros de comércio a longa distância. Milão, Gant (Gent) e Bruges (Brugge) especializaram-se em manufaturas.

Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2009


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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