Latim e Direito Constitucional

O aumento da riqueza dos nobres e da ascensão da cavalaria teve como resultado a melhoria na qualidade de vida e no tratamento dispensado às mulheres.

Até 1100 a maioria das habitações dos nobres era construída de madeira e incendiava-se com frequência, devido aos primitivos métodos de aquecimento e de cozinhar.

Depois de 1000 passaram a ser construídos castelos, geralmente de pedra, menos sujeitos a incêndios. As chaminés e lareiras eram com rebordo. Em vez de se ter uma fogueira ardendo no centro de um grande salão, aposentos individuais podiam ser aquecidos, e as pessoas ganhavam alguma privacidade.

Os nobres, via de regra, comiam menos vegetais que os camponeses, e sua dieta era carregada de carne. O aumento do comércio de luxo trouxe também caras especiarias exóticas às suas mesas, como pimenta e açafrão.

Nesse período os nobres procuravam mostrar a sua superioridade vestindo-se com elegância, até mesmo com ostentação. Surgiu então o vestuário justo, pois tinham acabado de ser inventados o tricô, o botão e a casa de botão.

A literatura dessa época mostrava as mulheres guindadas a um pedestal, ao contrário das de hoje, que preferem ascender socialmente saindo dele.

Ao melhorar a qualidade material da vida dos nobres, isso aconteceu tanto para as mulheres como também para os homens. Mais do que isso, verificou-se decididamente uma revolução em certas atitudes verbalizadas em relação ao sexo feminino.

Até o século 12 elas eram praticamente ignoradas na literatura. O típico poema épico francês narrava façanhas sangrentas que ou não faziam qualquer menção a mulheres ou as descreviam, de passagem, como totalmente subservientes.

Mas na primeira década do século 12 elas foram subitamente transformadas em objeto de veneração por parte dos poetas líricos e autores de romances. Trovadores típicos, ao referir-se à sua dama, diziam que tudo o que faziam de apurado eles inferiam de seu corpo formoso, pois ela era a árvore e o ramo onde amadurecia o fruto da alegria.

Com certeza essa nova literatura cortesã era extremamente idealista e um tanto artificiosa, mas exprimia os valores de uma cultura mais delicada, na qual as mulheres da classe superior eram, na prática, mais respeitadas do que antes.

Nos séculos 12 e 13 certas mulheres de famílias reais governaram realmente seus Estados em várias ocasiões, quando seus maridos ou filhos estavam mortos ou impossibilitados de fazê-lo.

Leonor da Aquitânia (Eleanor, Duchess of Aquitaine - 1122-1204), esposa de Henrique II Plantageneta (Henry Plantagenet - 1133-1189), ajudou a governar a Inglaterra, embora já contasse mais de 70 anos, quando seu filho Ricardo I (1157-1199), conhecido como Coração de Leão (Richard the Lionheart ou Cœur de Lion) participou de uma cruzada entre 1190 e 1194.

Branca de Castelo (Blanche de Castille) governou a França muito bem por duas vezes, no século 13, primeiro durante a menoridade de seu filho, Luís IX (Louis IX de France - 1214-1270), e, novamente, quando ele saiu numa cruzada.

De uma perspectiva moderna, sem dúvida, as mulheres da alta Idade Média ainda estavam submetidas a fortes limitações. Mas do ponto de vista do passado, o período foi de progresso para as mulheres das classes superiores.

O símbolo mais claro disso vem da história do jogo de xadrez. Antes do século 12 o jogo era praticado em países orientais, mas ali o equivalente da rainha era uma figura masculina, o principal ministro do rei, que só se podia mover em diagonal, uma casa de cada vez.

Na Europa ocidental do século 12, porém, essa peça foi transformada numa rainha, e, em algum momento antes do fim da Idade Média, ela passou a mover-se por todo o tabuleiro.

Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri ( Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi . 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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