Latim e Direito Constitucional

Antes dos tempos modernos, os agricultores sempre deixavam uma grande parte de sua terra arável de pousio durante um ano, a fim de evitar a exaustão do solo, uma vez que não havia fertilizantes suficientes para sustentar uma agricultura mais intensiva e porque as plantas fixadoras de nitrogênio, como o trevo e a alfafa, eram quase desconhecidas.

Os romanos, por sua vez, eram sinônimo de um extremo de improdutividade, pois eram incapazes de cultivar mais que metade de suas terras aráveis em qualquer ano.

A inovação medieval consistiu em reduzir a área de pousio em um terço, mediante a adoção do sistema de três campos . Num dano ano, um terço da terra ficava de pousio, um terço era dedicado a cereais semeados no outono e colhidos no começo do verão e outro terço a um novo produto – aveia, cevada ou legumes – plantado no fim da primavera e colhido em agosto ou setembro.

Os romanos não poderiam ter adotado esse sistema, porque suas terras eram pobres e, principalmente, porque a superfície do Mediterrâneo é demasiado seca para permitir muito cultivo de verão.

Uma terceira invenção importante foi o emprego de moinhos. Os romanos tinham conhecido as rodas de água, mas praticamente não as utilizavam. Em parte porque possuíam escravos em número suficiente para não se preocupar com máquinas poupadoras de mão-de-obra e em parte porque na maioria dos seus territórios não abundavam correntes rápidas.

Por volta de 1050 teve início na Europa do norte uma verdadeira mania de construção de moinhos de águas cada vez mais eficientes.

Assim que os europeus dominaram a complexa tecnologia de construção de moinhos de água, voltaram a atenção para o aproveitamento da energia eólica: por volta de 1170 construíram seus primeiros moinhos de vento.

A partir de então, em terras planas como as da Holanda, onde não havia correntes rápidas, os moinhos de vento proliferaram. Logo foram adaptados para muitas outras funções importantes, como movimentar serras, fabricar tecidos, espremer óleo, fazer cerveja, proporcionar força a forjas e esmagar polpa para a produção de papel.

Outros avanços tecnológicos relacionaram-se à utilização de cavalos na agricultura. A coleira acolchoada possibilitava ao cavalo arrastar os pesos com toda a força sem se sufocar. A ferradura de ferro, para proteção dos cascos, e o arreio em fila permitiam que os cavalos de tiro trabalhassem um atrás do outro.

Graças a esses avanços e à abundância de aveia proporcionada pelo sistema de três campos, os cavalos substituíram os bois na agricultura em certas partes da Europa, e com vantagem, para trabalhar mais depressa e durante mais tempo.

Com o avanço de técnicas modernas deu-se um cultivo mais intensivo das terras já abertas à agricultura. Por volta de 1050 tiveram início grandes movimentos de limpeza de terra, que se aceleraram no século 12. A paz e a estabilidade política permitiram aos lavradores do norte da França e do oeste da Alemanha ir além das ilhas de povoamento e limpar pequenas extensões de cada vez.

Por fim dos séculos 12 e 13 os camponeses começaram a trabalhar com mais eficiência e intensidade todas as terras que haviam preparado, a fim de auferir rendas para si mesmos.

O resultado de todas essas mudanças foi um enorme aumento de produção agrícola. Havendo mais terras aráveis, aumentava-se o número de produtos cultivados com a adoção de métodos agrícolas mais eficientes. Assim, pela primeira vez, os europeus puderam contar com um suprimento regular e estável de alimentos.

Esse fato teve as mais profundas consequências para o desenvolvimento da história européia.

Mais terras podiam ser dedicadas a outros usos que não o cultivo de grãos. Daí mais diversificação e especialização na agricultura. Assim territórios foram separados, uns para a ovinocultura, outros para a vinicultura e outros, por fim, para a produção de algodão e corantes.

Apesar de muitos dos produtos serem consumidos em nível local, muitos eram comercializados em lugares distantes ou utilizados como matérias-primas para novas indústrias, sobretudo a fabricação de tecidos.

O crescimento desse comércio e dessa atividade manufatureira ajudou a fomentar e sustentar o crescimento das cidades. O surto agrícola sustentou um forte incremento da população. Em consequência disso, ou seja, com o aumento da disponibilidade de alimentos e a melhoria da dieta, devido ao aumento de proteínas, a expectativa de vida passou de uma média de 30 para 40 a 50 anos.

Uma população mais saudável fez com que aumentasse também a taxa de natalidade. Por esse motivo a população do Ocidente mais ou menos triplicou entre 1050 e 1300. O aumento da população e dos engenhos poupadores de mão-de-obra propiciou um certo êxodo rural: algumas pessoas podiam migrar para as novas vilas e cidades, onde encontravam um novo estilo de vida.

Outro saldo positivo foi a elevação das rendas dos senhores de terras, o que ofereceu um acentuado aumento da complexidade da vida aristocrática, e as dos monarcas, o que facultou o crescimentos dos Estados.

A prosperidade em toda a Europa ajudou também a sustentar o crescimento da Igreja e preparou o caminho para o florescimento de escolas e de atividades intelectuais. Resultado final foi ter tornado os europeus mais otimistas, mais enérgicos e mais dispostos à experimentação e aos riscos do que qualquer um de seus rivais no cenário mundial.

Rio de Janeiro, 04 de janeiro de 2009.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri ( Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi . 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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