Latim e Direito Constitucional

Entre 1050 e 1300 a Europa saiu pela primeira vez do atraso em que se encontrava, para tornar-se uma das maiores potências do globo.

O motivo desse progresso foi o fato de terem cessado as invasões de vikings, húngaros e muçulmanos; quando eles deixaram de ser um perigo iminente, os europeus ocidentais puderam concentrar-se em desenvolver a sua via econômica.

A revolução operada na economia fez com que os alimentos ficassem mais abundantes e proporcionou uma base sólida para o seu desenvolvimento e para a diversificação em outras esferas.

A população cresceu depressa; as cidades e vilas expandiram-se em tal grau que se pode falar também em revolução urbana.

A vida política tornou-se mais estável. Novos governos seculares fortes começaram a propiciar paz interna para seus súditos e transformaram-se nos fundamentos de nossas modernas nações-estados.

O trabalhador agrícola sustentou materialmente a civilização europeia até a industrialização dos tempos modernos. Ainda em 1050 ele não dispunha sequer de uma enxada. Os instrumentos eram raríssimos, razão por que muitos trabalhadores tinham de lutar contra a natureza usando literalmente as mãos.

Entre 1050 e 1250 ocorreu uma revolução agrícola que alterou de todo a natureza e aumentou a produção dos campos da Europa ocidental.

O peso da civilização europeia deslocou-se da região mediterrânea para o Atlântico norte, região constituída por uma vasta planície aluvial, úmida e extremamente fértil.

Os romanos não haviam cultivado essa área, porque ela se localizava longe demais do centro de sua civilização e também porque não possuíam ferramentas e métodos adequados para trabalhar a terra.

Os carolíngios abriram toda a Alemanha ocidental à exploração agrícola e começaram a experimentar novos métodos e implementos mais apropriados ao cultivo das novas terras. Enquanto a civilização ocidental esteve centrada na Inglaterra, no norte da França e na Alemanha, as terras ricas não deixaram de ser cultivadas.

Outro pré-requisito para o desenvolvimento agrícola foi a melhoria do clima, de 700 a 1200, com a temperatura em média mais alta e o clima um tanto mais seco.

Essa secura era uma vantagem para a Europa setentrional, onde as terras eram em geral úmidas demais para a boa agricultura, ao passo que representou uma desvantagem para o sul, na vasta extensão do Mediterrâneo, já bastante seca.

As técnicas e instrumentos ficaram de uso geral e foram aprimorados entre os anos 1050 e 1200, pois só então se verificou uma conjunção das circunstâncias mais favoráveis. Os proprietários de terra interessaram-se mais em lucros do que no simples consumo. Além disso, houve uma maior consolidação de riquezas para investimentos adicionais, à medida que um avanço ajudava a sustentar outro. Agora era possível pagar progressos tecnológicos.

Os romanos conheciam um leve arado de unhada que quebrava a superfície da terra sem revolvê-la inteiramente. Esse instrumento bastava para o solo das regiões mediterrâneas, mas era inútil no solo mais carregado e mais úmido do norte europeu.

No decurso da Idade Média criou-se um arado mais pesado e eficiente, capaz de lavrar as terras do norte. De mais a mais, esse novo arado era dotado de novos componentes que lhe permitiam revolver os sulcos e arejar perfeitamente a terra.

Os benefícios foram imensos. Além de permitir o cultivo de terras até então inaproveitáveis, os sulcos proporcionavam excelentes sistemas de drenagem para áreas encharcadas.

Ademais, poupava trabalho: enquanto o leve arado romano tinha de ser passado nos campos duas vezes em direções diferentes, o arado pesado realizava um trabalho imenso e numa só direção.

Em suma, a prática da agricultura intensiva na Europa setentrional, com todas as suas consequências, teria sido impossível sem o arado pesado.

Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2008.
 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri ( Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi . 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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