Latim e Direito Constitucional

Entre os séculos 8º e 9º a economia europeia baseou-se quase inteiramente na agricultura e num limitadíssimo comércio local.

As cidades que sobreviveram à época romana eram em geral invólucros vazios que serviam no máximo como centros administrativos para bispos e como núcleos fortificados em caso de perigo comum.

As principais unidades econômicas foram o grande latifúndio autossuficiente, em geral de propriedade de reis e guerreiros aristocratas, e os grandes mosteiros.

Embora o solo da Europa setentrional fosse rico, os implementos agrícolas ainda eram demasiado primitivos. Assim, os rendimentos agrícolas eram irrisórios, e a população vivia à beira da subsistência.

Dado o baixo nível da vida econômica, não prosperaram o saber e as artes, pois a riqueza existente mal dava para manter viva a maior parte da população. O saber era privilégio de poucos. As massas não recebiam qualquer educação formal. Até mesmo os membros da aristocracia secular eram, na maioria, analfabetos.

A Renascença carolíngia não se transformou em qualquer atividade intelectual verdadeira; sua principal realização foi a criação de escolas em número suficiente para ensinar ao clero os rudimentos da leitura e para treinar escribas monásticos, encarregados de recopiar e preservar algumas obras importantes da literatura romana.

A produção literária foi extremamente escassa. Os poucos que sabiam escrever eram monges e sacerdotes, para quem a atividade puramente literária não era de interesse.

Houve algumas obras históricas escritas em latim, sobretudo as de Beda (The Venerable Bede – 672/673‑735) e de Einhard (Eginhard ou Einhart – 775-840), eloquente biógrafo de Carlos Magno (Carolus Magnus, Charlemagne, Karl der Große), mas, de maneira geral, a prosa latina era pouco cultivada. Línguas vernáculas germânicas (romance – assim chamadas por se basearem na fala romana) começaram a ser empregadas em poemas primitivos, a princípio por transmissão oral.

O exemplo mais conhecido dessa literatura em vernáculo é o épico anglo-saxão Beowulf, um marco na literatura medieval, que incorpora antigas lendas dos povos germânicos no noroeste da Europa. É uma narrativa de lutas, navegações e aventuras heroicas contra dragões mortíferos e as forças da natureza. É importante não só por ser um dos primeiros espécimes de poesia do inglês antigo, mas pela imagem que revela da sociedade da Inglaterra no início da Idade Média.

A arte desse período é um conjunto de realizações isoladas e interrompidas, pois a vida artística dependia de breves momentos de paz local ou de patrocínio real. Os primeiros movimentos da arte medieval antiga foram os criados por monges na Irlanda entre os séculos 6º e 8º.

Sobretudo nas iluminuras de manuscritos, eles desenvolveram um estilo inteiramente anticlássico e quase surrealista. O maior produto que sobreviveu dessa escola é o assombroso Livro de Kells (Book of Kells, Leabhar Cheanannais), também conhecido como Grande Evangeliário de São Columba, uma coleção iluminada dos evangelhos, a mais sofisticada obra de arte decorativa da história da pintura.

A arte no período carolíngio buscou muito de sua inspiração em modelos clássicos, mas reteve parte da vitalidade espontânea da decoração dos bárbaros.

Ao enfraquecer-se e desintegrar-se esse império, verificou-se uma concomitante decadência e, depois, uma interrupção na história da arte ocidental.

No século 10º surgiram novas escolas regionais. As principais foram: a) a inglesa, que salientava a fluência inquieta na iluminação de manuscritos; b) a alemã, mais grave, porém ainda capaz de comunicar um extremo êxtase religioso; c) a do norte da Espanha, que, embora cristã, criou um estilo um tanto estranho e independente, cuja maior influência foi o estilo decorativo da arte islâmica.

No apagar das luzes da Idade Média inicial estava surgindo na Europa um novo estilo internacional que viria a ser chamado de românico.

Não existe uma data final para o fim da história da Idade Média inicial como um todo. Cita-se o ano 1000 por ser um conveniente número redondo, mas em 1050 a Europa não havia mudado muito na superfície, em relação ao que fora desde o fim do período carolíngio.

Olhando-se para a Europa do ano 1050, percebe-se que houve pouco progresso em todo o decorrer dos séculos da Idade Média inicial.

Salvo na Germânia, não havia praticamente nenhum governo centralizado, pois o Estado anglo-saxônico criado pelo rei Alfredo (Alfred the Great - 849-899) e seus sucessores estava se desmantelando.

Exceto os mais privilegiados, os europeus continuavam a viver à beira da fome, e as realizações culturais eram mínimas e esparsas.

Mas muita coisa havia sido feita. Transferindo o seu peso principal para o noroeste atlântico, a civilização europeia passou a centrar-se em terras que em breve produziriam grandes riquezas agrícolas.

Ao preservar algumas das tradições desenvolvidas por Gregório Magno, Bonifácio, Pepino e Carlos Magno, a civilização europeia desenvolveu também um duradouro senso de unidade cultural, baseada no cristianismo ocidental e na herança latina.

No século 10º começaram a cristalizar-se os futuros reinos e cidades-estados europeus. Pela primeira vez a civilização europeia estava se tornando autônoma e com personalidade própria. A partir daí se tornaria uma força importante na história do mundo, como ainda é hoje.

Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 2008.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8.

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