Latim e Direito Constitucional

A Idade Média inicial no Ocidente é o terceiro herdeiro de Roma.

No período que vai mais ou menos de 600 a 1050, os europeus ocidentais estavam muito atrasados em relação a seus vizinhos bizantinos e islâmicos. As suas condições materiais eram muito primitivas – era como se vivessem em acampamentos.

Mas situações novas e promissoras estavam ganhando formas. Por volta de 800, a monarquia dos francos logrou criar um império europeu ocidental em aliança com a igreja cristã do Ocidente. Essa união conseguiu moldar uma nova unidade cultural no Ocidente, que teria grande importância no futuro.

Depois que os romanos do Oriente, sob o comando de Justiniano ( Flavius Petrus Sabbatius Justinianus – 483-565), destruíram os domínios ostrogodo e vândalo na Itália e na África e após os árabes terem eliminado o reino visigodo na Espanha, os governantes francos da Gália ficaram como o principal poder bárbaro sobrevivente na Europa ocidental.

O fundador do Estado franco foi Clóvis (466-511), que conquistou a maior parte da França e da Bélgica atuais por volta de 500. Habilmente se converteu ao cristianismo católico, a religião dos bispos locais e da população nativa.

A dinastia merovíngia infelizmente não foi transmitida unida a seus sucessores, mas dividida entre seus filhos. Durante os 200 anos seguintes, filhos lutaram contra filhos. Assim os inúmeros reis indolentes abandonaram o governo e as guerras a seus ministros, conhecidos como mordomos do paço.

Durante toda essa era, a alfabetização foi quase esquecida, o comércio diminuiu, as cidades declinaram e a violência tornou-se endêmica.

Apesar disso, embora passasse despercebida, alguma esperança para o futuro estava a ganhar forma em torno de duas instituições: o papado romano e o monasticismo beneditino.

O artífice de uma nova política religiosa na Europa foi o papa Gregório I (540-604), conhecido como São Gregório Magno.

Até ele os papas estavam subordinados aos imperadores de Constantinopla. Mas Gregório neutralizou esse estado de coisas pela criação de uma igreja latina, de orientação ocidental e mais autônoma.

Como teólogo, desenvolveu o trabalho de seus três predecessores: Jerônimo, Ambrósio e Agostinho. Articulou uma teologia com características próprias, como a ideia da penitência e o conceito do purgatório como lugar de purificação antes da admissão aos céus, o que se tornou uma das grandes diferenças nos dogmas das igrejas oriental e ocidental.

Foi também pioneiro de uma prosa latina enxuta e simplificada, que correspondia à língua falada de seus contemporâneos, e presidiu à criação de uma poderosa liturgia latina. Sob a sua orientação desenvolveu-se o canto gregoriano, cantochão, que se tornaria para sempre parte central do ritual católico.

Todas essas inovações contribuíram para tornar o Ocidente cristão, do ponto de vista religioso e cultural, mais independente do Oriente de língua grega do que jamais fora antes.

Além de teólogo e linguísta, Gregório I destacou-se também como estadista. Na Itália garantiu a sobrevivência física do papado em face da ameaça dos bárbaros lombardos, através de uma hábil diplomacia e pela administração sensata dos territórios papais.

Voltou a dar ênfase às antigas pretensões de primazia do papado, principalmente sobre os bispos do Ocidente, as quais corriam perigo de ser esquecidas.

Protegeu a ordem beneditina e usou os monges para ajudarem na evangelização de novos territórios ocidentais. Como ele próprio havia sido um beneditino, escreveu a biografia de São Bento.

Sendo essa ordem religiosa muito nova e os tempos turbulentos, a proteção do papa Gregório ajudou a fazer com que ela sobrevivesse e mais tarde se tornasse a única ordem monástica do Ocidente.

Plano especial seu foi a conversão da Inglaterra anglo-saxônica ao cristianismo, projeto a longo prazo, mas sua consequência foi deixar um posto avançado cristão inteiramente leal e que em breve ajudaria a unificar o papado e o Estado franco.

A política de revigoramento da igreja ocidental foi o principal fator de sua realização.

Rio de Janeiro, 30 de novembro de 2008.
 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri ( Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi . 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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