Latim e Direito Constitucional

A vitória temporária da iconoclastia teve como consequência fazer os bizantinos voltarem a reafirmar a fé no tradicionalismo, ao declarar que estavam tão-somente reiterando ou desenvolvendo as implicações da tradição.

Isso deu força à religião, ao pôr fim à controvérsia e à heresia, mas inibiu a livre especulação não só em religião como também em assuntos intelectuais correlatos.

Resultado disso foi o triunfo da piedade contemplativa. Para eles os ícones não eram para ser adorados, mas ajudavam a levar a mente do material para o imaterial. Assim, a ênfase na contemplação como caminho para a iluminação religiosa tornou-se marca da sua espiritualidade.

Dessa maneira o típico santo ocidental era um ativista que via o pecado como um vício e buscava a salvação através das boas obras. Os teólogos orientais, por outro lado, viam o pecado como ignorância e acreditavam que a salvação seria encontrada na iluminação. Isso conduziu o cristianismo oriental a uma certa passividade e misticismo.

Apesar de dominada pela religião, a cultura dos clássicos não foi esquecida. As escolas baseavam a instrução na literatura grega clássica, a ponto de as pessoas cultas serem capazes de citar Homero tão frequentemente como os ingleses hoje citam Shakespeare. Os sábios estudavam e comentavam a filosofia de Platão e Aristóteles e os escritores imitavam a prosa de Tucídides.

Esse classicismo foi produto de um sistema educacional para o laicato, que se estendeu até à educação feminina. A famosa intelectual Ana Comnena (1083-1153) descreveu os feitos de seu pai, Aleixo I Comneno (1048-1118), numa biografia primorosa, em que citava Homero e os trágicos gregos. Além dessas figuras literárias, havia médicas no império, coisa rara nos Estados Unidos até o início do século passado.

Mais conhecidas são as realizações na arquitetura e na arte. Exemplo disso é a igreja de Santa Sofia, construída no século 6º, cujo objetivo era simbolizar o caráter interiorizado e espiritual da religião cristã.

Tanto na arquitetura como na arte, eles mostraram grande mestria no entalhe do marfim, na iluminura de manuscritos, na ourivesaria e na criação de mosaicos, o que a fez conhecida como modelo de perfeição intemporal.

O maior testemunho da vitalidade da civilização bizantina talvez tenha sido a conversão de muitos povos eslavos, em especial os da Rússia.

Conta-se que o príncipe Vladímir Sviatoslávich (958-1015), em 988, abandonou o paganismo dos seus ancestrais. Enviou emissários que lhe deveriam trazer descrições das práticas religiosas do islã, do catolicismo romano e do cristianismo bizantino. Quando voltaram e lhe disseram que apenas entre os bizantinos Deus parecia “viver entre os homens”, ele prontamente concordou em ser batizado por um missionário.

Após a queda de Constantinopla, em 1453, os russos começaram a acreditar que eram os eleitos para transmitir a fé como a missão imperial do Império Bizantino. O seu governante assumiu o título de czar, que significa césar. Os russos diziam que Moscou era “a terceira Roma”.

Fora de dúvida que princípios de Bizâncio influenciaram a arte sacra russa e que suas ideias tiveram impacto sobre o pensamento dos dois maiores escritores da Rússia moderna, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881) e Lev Nikoláievich Tolstói (1828-1910).

Nessa época em que as relações entre Constantinopla e a Rússia se estiveram solidificando, as com o Ocidente deterioravam, a ponto de se tornarem irreparáveis. Em 1054, as pretensões papais de primazia sobre a igreja oriental provocaram um cisma religioso, que desde então não foi sanado.

Após o saque de Constantinopla, em 1204, tornou-se imenso o ódio bizantino pelos ocidentais. Os beneficiários desse rancor foram os turcos, que não só conquistaram Constantinopla, em 1453, como a maior parte do sudeste da Europa até Viena.

Temos uma enorme dívida cultural com os sábios bizantinos, que ajudaram a preservar o conhecimento grego clássico. Na Renascença italiana eles contribuíram para um contato com as obras de Platão. Igualmente a sua arte está presente na basílica de São Marcos, em Veneza, e nos grandes pintores ocidentais, como Giotto di Bondone (1276-1337) e Doménikos Theotokópoulos , mais conhecido como El Greco (1541-1614).

Rio de Janeiro, 12 de outubro de 2008.
 

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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri ( Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi . 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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