Latim e Direito Constitucional

Maomé mudou o nome de Yathrib para Medina (cidade do profeta) e conseguiu impor-se como governante da cidade. Conscientemente organizou seus convertidos numa comunidade tanto política quanto religiosa.

Em 630, após várias batalhas no deserto, entrou triunfante na Meca. Os coraixitas submeteram-se à nova fé e a caaba tornou-se o principal santuário do islã, como é ainda hoje.

Com a tomada de Meca, outras tribos em toda a Arábia aceitaram a nova religião. Maomé morreu em 632, tendo vivido o suficiente para ver bem sucedida a fé que ele havia lançado.

A doutrina é muito simples. A própria palavra islã tem o sentido de submissão, e a fé islâmica exige absoluta subordinação a Deus.

Alá significa o Deus criador todo-poderoso, a mesma divindade onipotente adorada por cristãos e judeus. Os muçulmanos acreditam não existir outra, senão Deus.

Para eles Maomé foi o último e o maior dos profetas. Ao pregar o monoteísmo estrito, ele ensinava que todos os homens e mulheres deveriam sujeitar-se inteiramente a Deus, pois o juízo divino estava iminente.

Os mortais têm de fazer uma opção fundamental: se decidirem por uma vida de serviço a Deus, serão guiados à bem-aventurança; se não o fizerem, serão afastados dela e tornar-se-ão irremediavelmente iníquos. No dia do juízo, aos fiéis será concedida uma vida eterna num paraíso carnal de delícias, enquanto os condenados serão mandados a um reino de fogo e tortura eterna.

As medidas práticas que o crente pode tomar são encontradas no alcorão, a compilação das revelações feitas por Deus a Maomé e, por conseguinte, a codificação definitiva do islã. Entre outras, contam-se: dedicação rigorosa à retidão moral e à compaixão, bem como fidelidade aos mandamentos religiosos, um regime de orações e jejum, peregrinação a Meca e recitação frequente de parte do alcorão.

Não é casual a semelhança do islamismo com o judaísmo e o cristianismo, pois havia muitos judeus em Meca e Medina. Assim, Maomé foi influenciado pelas duas religiões.

Os principais pontos de contato entre o islã e essas duas religiões são o estrito monoteísmo, a ênfase na moralidade e na compaixão pessoais e a adesão às escrituras reveladas.

Apesar de proclamar ser o alcorão a fonte suprema de autoridade religiosa, Maomé aceitava o Velho e o Novo Testamento como livros de inspiração divina. Tudo indica que ele se inspirou nas doutrinas cristãs sobre o juízo final e a ressurreição do corpo, com subsequentes recompensas e punições, e para fundamentar sua crença em anjos, já que acreditava que a primeira mensagem de Deus lhe fora trazida pelo anjo Gabriel.

Aceitava Cristo como um dos maiores, de uma longa linhagem de profetas. Não levava em consideração a doutrina cristã de redenção pelo amor e pregava uma religião sem sacramentos ou sacerdotes.

Todo o crente é diretamente responsável por viver a fé, sem intermediários. Em vez de ministros do culto, o islã tem estudiosos da religião, que podem comentar os problemas da fé e da lei islâmica.

Eles oram juntos em mesquitas, mas não existe nada parecido com a missa católica. A ausência de clero torna o islamismo mais semelhante ao judaísmo, parecença ressaltada pela ênfase dada à ligação indissolúvel entre a vida religiosa e a sociopolítica da comunidade inspirada por Deus. Mas, ao contrário do judaísmo, o islã aspirava ao universalismo e a um papel basilar na unificação do mundo, desde que começou a transbordar os limites da Arábia.

Após a morte de Maomé, teve início o movimento no sentido da transformação do islã numa força mundial. Seu sogro Abu Bakr (570-634) e seu discípulo Omar ibn al-Khattab (586-644) tomaram rapidamente essa iniciativa. Abu Bakr foi nomeado califa, que quer dizer representante do profeta.

Durante 300 anos, o califa serviria como o chefe religioso e político supremo de todos os muçulmanos.

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2008.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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