Latim e Direito Constitucional

O mundo bizantino é o primeiro herdeiro de Roma.

No século 17, os europeus criaram o termo idade média, para exprimir o longo e melancólico período de suspensão entre as gloriosas realizações da Grécia e da Roma clássicas e sua própria era moderna.

A carga negativa de desdém que teve no passado não mais se justifica. Entre 600 e 1500 aconteceram muitas coisas diferentes e interessantes.

Nas partes centrais do Império Romano surgiram duas novas civilizações, a bizantina e a islâmica, das mais expressivas de todos os tempos. Embora a bizantina tenha chegado ao fim em 1453, a islâmica continuou a existir sem grandes interrupções e dura até hoje.

Sob o ponto de vista islâmico, a idade média não foi um período intermediário, mas uma época maravilhosa de nascimento e vigorosa juventude.

Nas suas três partes, ou seja, idade média inicial, alta e tardia, a religião cristã desempenhou um papel de extraordinária importância na vida humana. Afora a religião, poucos foram os outros denominadores comuns.

A idade média inicial, de uns 600 a 1050, foi a que mais perto chegou a parecer um intervalo de trevas, pois o nível de realização material e intelectual foi muito baixo. Mesmo assim, a Europa ocidental começou a desenvolver seu próprio senso distinto de identidade cultural.

A alta idade média, de uns 1050 a 1300, foi uma das fases mais criativas da história do homem. Os europeus melhoraram em seu padrão de vida, fundaram Estados nacionais duradouros, criaram novas instituições de ensino, novas maneiras de pensar e produziram magníficas obras literárias e artísticas.

Durante a idade média tardia, de uns 1300 a 1500, a sobrevivência de outras civilizações da etapa anterior foi carregada por numerosos desastres, uma depressão econômica de particular gravidade e uma peste mortífera.

Os povos superaram a adversidade, apegaram-se ao que havia de mais valioso em sua herança, além de criarem instituições e modos de pensar adequados às novas circunstâncias.

Assim, no início do século 7º surgiu um novo período da história da civilização ocidental, pois ficou claro que não haveria um único império que englobasse todos os territórios vizinhos do Mediterrâneo.

Por volta do ano 700 havia, em lugar de uma Roma unida, três civilizações sucessoras: a bizantina, a islâmica e a cristã ocidental, cada uma com sua própria língua e estilos de vida característicos.

A bizantina, que descendia em linha direta do Império Romano, era de idioma grego e dedicava-se a combinar as tradições romanas de governo com uma intensa busca da fé cristã.

A islâmica falava o árabe e inspirava-se, tanto no tocante ao governo como no que dizia respeito à cultura, no idealismo de uma nova e dinâmica religião.

Em comparação com as outras, a cristã ocidental era retardatária. Apresentava a economia menos avançada e via-se a braços com deficiências organizacionais, tanto no governo como na religião. No entanto, contava com uma certa base unificadora no cristianismo e na língua latina e em breve começaria a encontrar maior coesão política e religiosa.

Durante cerca de quatro ou cinco séculos, o Ocidente viveu à sombra de Constantinopla e de Meca. Essas duas civilizações, pelo seu valor intrínseco, influenciaram a evolução da Europa ocidental, direta e indiretamente.

Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2008.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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