Latim e Direito Constitucional

Agostinho de Hipona (Aurelius Augustinus) foi um dos mais pujantes intelectuais de todos os tempos. Nasceu em 354 e morreu em 430, quando os vândalos lhe assediavam a cidade episcopal. De influência incalculável, ainda hoje muitos pensadores se têm denominado neoagostinianos.

Uma das razões de ter sido o seu cristianismo tão inquisitivo talvez esteja no fato de ele ter começado a vida à sua procura.

Nominalmente cristão de nascimento, hesitou até os 33 anos em ser batizado, passando de um sistema de pensamento a outro, sem conseguir encontrar satisfação intelectual ou de espírito em qualquer deles.

As suas dúvidas e uma experiência mística descritas com emoção nas Confissões (Confessiones), autobiografia na qual relata a sua conversão e a sua vida antes de se tornar cristão, o levaram a abraçar a fé em 387. Embora o cargo de bispo o ocupasse bastante, encontrou tempo para escrever grande número de tratados profundos, complexos e vigorosos, nos quais expôs suas convicções relativamente aos problemas basilares do pensamento e da ação cristã.

Sua teologia girava em torno dos princípios da onipotência divina e da profunda pecaminosidade do homem. Desde que se afastou de Deus, no jardim do Éden, ele tem sido basicamente um pecador (Gn 2, 4 b; 3, 24).

Em um trecho das Confessiones, narra como ele e alguns companheiros eram impelidos a furtar peras do pomar de um vizinho, não porque tivessem fome ou elas fossem apetitosas, mas apenas pela propensão ao mal em si.

Na sua teoria, Deus seria inteiramente justo se condenasse todos os seres humanos ao inferno. Mas, como é também misericordioso, escolheu salvar alguns. Assim, os homens devem fazer o bem e, se forem “escolhidos”, farão o bem. Como ninguém sabe quem será ou não escolhido, todos devem tentar praticar o bem, na esperança de estarem entre os eleitos.

Em outras palavras, Agostinho ensinava que os seres humanos deveriam conduzir-se na terra como se fossem viajantes ou “peregrinos”, mantendo os olhos voltados sempre para o seu lar espiritual, evitando todos os cuidados materialistas.

Ele argumentava que a raça humana, desde a criação até o juízo final, foi e será composta de duas sociedades beligerantes: aqueles que “vivem conforme o homem”, e amam a si próprios, e aqueles que “vivem conforme Deus”. Os primeiros pertencem à “Cidade da Terra” e serão condenados, ao passo que os poucos abençoados, que compõem a “Cidade de Deus”, vestirão no dia do juízo o manto da imortalidade.

Criação de Agostinho é a filosofia da história. Na sua obra imortal De civitate Dei, mostra no progresso que preside a história da humanidade o desenvolvimento do plano divino, para cuja execução concorrem bons e maus como instrumentos em mãos da Providência.

Entre os seguidores de Agostinho, o mais interessante e influente foi Severino Boécio (Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius), que viveu de 480 a 524. Aristocrata romano, escrevia num estilo polido, quase ciceroniano. Pretendia que os clássicos deveriam servir a propósitos cristãos, tal como prescrevera Agostinho.

Sua meta principal era preservar o que a cultura clássica tinha de melhor, mediante uma série de manuais, traduções e comentários.

Concentrou seus esforços na lógica, seu tema favorito. Traduziu do grego para o latim alguns estudos lógicos de Aristóteles, bem como uma obra introdutória sobre a lógica de Porfírio, a fim de ajudar os iniciantes.

Embora expositor da lógica aristotélica, a sua concepção do mundo era a de Agostinho. Pode-se ver isso na sua obra-prima Sobre a Consolação da Filosofia (De Consolatione Philosophiae), escrita na prisão.

Nesse trabalho ele levanta a questão do que vem a ser a felicidade humana e conclui que ela não é encontrada em recompensas terrenas, como fama e riqueza, mas somente no “bem supremo” que é Deus.

Esse livro tornou-se um dos mais populares na Idade Média, por ser bem escrito e, sobretudo, por parecer atribuir um significado real à vida.

Nessa época em que todas as coisas terrenas se figuravam realmente grosseiras e fugazes, constituía consolo genuíno ouvir, de modo eloquente e “filosófico”, que a vida tem sentido se for vivida em amor a Deus.

Rio de Janeiro, 6 de julho de 2008.


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N. do A. – Foram utilizadas aqui algumas ideias de Giovanni Reale e Dario Antiseri (Il pensiero occidentale dalle origini ad oggi. 8. ed. Brescia: La Scuola, 1986).

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